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[1º ano] Sociologia: O Suicídio para Émile Durkheim

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Caros alunos, boa tarde!


Nesta postagem trago para vocês uma breve explicação sobre um dos assuntos da Sociologia do pensador francês Émile Durkheim.

Como já vimos em sala de aula, Durkheim pretendia fazer da Sociologia uma ciência tão objetiva quanto a matemática, a física ou a biologia. Segundo ele, para a compreensão da sociedade, é necessário enxergá-la com objetividade. E o objeto de estudo de sua teoria é o que ele definiu como FATOS SOCIAIS.

Fatos sociais, na sociologia Durkheimiana é toda maneira de pensar, agir ou de se comportar que tem valor de regra dentro de uma sociedade e dotado de um poder coercitivo. Exemplo: os valores morais, as leis, os costumes são fatos sociais. 

As características e a importância dos fatos sociais como objeto de estudo da sociologia nós já discutimos em sala. Neste momento, trago para vocês mais algumas linhas a respeito de um tema que está sendo debatido na mídia e nas redes sociais, mas com um olhar sociológico de uma autoridade no assunto que é conteúdo neste bimestre: a visão sobre o suicídio para Durkheim.


O Suicídio como uma questão social para Durkheim

Para o senso comum, o suicídio é tido como uma atitude completamente pessoal, íntima e que parece não ter uma explicação convincente para tal atitude. Durkheim vem mostrar, então, que a sua prática não tem a ver somente com o indivíduo, mas sim com uma série de variáveis sociais. Estas variáveis sociais influenciam e repercutem no indivíduo, favorecendo que ele pense em tirar sua própria vida. Porém, o modo como esses fatores refletem depende muito do modelo de sociedade que se considera. 

A obra O Suicídio foi um dos pilares no campo da sociologia. Escrito e publicado em 1897, foi um estudo de caso sobre o assunto, publicação única em sua época, que trouxe um exemplo de como uma monografia sociológica deveria ser escrita. O suicídio é, para Durkheim, “todo o caso de morte que resulta, direta ou indiretamente, de um ato, positivo ou negativo, executado pela própria vítima, e que ela sabia que deveria produzir esse resultado”. Conforme o sociólogo, cada sociedade está predisposta a fornecer um contingente determinado de mortes voluntárias, e o que interessa à sociologia sobre o suicídio é a análise de todo o processo social, dos fatores sociais que agem não sobre os indivíduos isolados, mas sobre o grupo, sobre o conjunto da sociedade. Cada sociedade possui, a cada momento da sua história, uma atitude definida em relação ao suicídio. 

Segundo este pensador, a variável que determina a opção pela abreviação deliberada da existência é a força ou a fragilidade dos laços sociais. E, portanto, o suicídio será tanto mais provável quanto mais frágeis forem os laços sociais dos indivíduos entristecidos. Organização social, natureza dos indivíduos que a compõem e acontecimentos que perturbam a harmonia do funcionamento coletivo são fatores que influenciam gritantemente nas taxas de suicídio de uma sociedade. Como cada uma possui suas peculiaridades, os fatores sociais vão agir de modo distinto. Assim, diferentes sociedades vão ter diferentes taxas de suicídio. Elas se manterão constantes e uma alteração só ocorreria caso houvesse uma mudança muito brusca na organização do corpo social. 

Há três tipos de suicídio, segundo a etimologia de Émile Durkheim, e cada tipo apresentado por ele se manifestará nas sociedades dependendo da coesão social (o que mantém a sociedade unida).
SUICÍDIO EGOÍSTA: característico de sociedades com baixa coesão social. É aquele em que o ego individual se afirma exageradamente face ao ego social, ou seja, há uma individualização enorme. As relações entre os indivíduos e a sociedade se afrouxam fazendo com que o indivíduo não veja mais sentido na vida, não tenha mais razão para viver. Em outras palavras, há um desamparo social grande, causando uma melancolia imensa, uma tristeza profunda, pois os valores sociais e a ideia de coletivo já não parecem fazer sentido, nem serem importante. Tendo a ideia do coletivo enfraquecida, a valorização individual é mais presente. A pessoa tende a ser individualista e egoísta, passa a dar importância em realizar os seus desejos (primazia do ter sobre o ser) e a sustentar aparências. No entanto, quando ele percebe que a vida dele está resumida nas coisas pequenas, não consegue conquistar os seus objetivos fúteis e que não há um sentido maior perdendo, portanto, a vontade de viver.

SUICÍDIO ANÔMICO: característico de sociedades com baixa coesão sócia, é aquele que ocorre em uma situação de anomia social, ou seja, quando há ausência de regras na sociedade, gerando o caos, fazendo com que a normalidade social não seja mantida. Em outras palavras, quando “o negócio está bagunçado”, onde as instituições sociais como a família, a escola, a igreja e o próprio Estado já não cumprem mais o seu papel social, pois estão desmoronando. As instituições sociais perdem o respeito das pessoas. Suas normas sociais, que deveriam manter unida a sociedade, não funcionam mais.  Em uma situação de crise econômica, por exemplo, na qual há uma completa desregulação das regras normais da sociedade, certos indivíduos ficam em uma situação inferior a que ocupavam anteriormente. Assim, há uma perda brusca de riquezas e poder, fazendo com que, por isso mesmo, os índices desse tipo de suicídio aumentem.
SUICÍDIO ALTRUÍSTA: é o tipo de suicídio característicos de sociedades com grande coesão social. O suicídio altruísta é aquele no qual o indivíduo sente-se no dever de fazê-lo para se desembaraçar de uma vida insuportável. É aquele em que o ego não o pertence, confunde-se com outra coisa que se situa fora de si mesmo, isto é, em um dos grupos a que o indivíduo pertence. O suicida altruísta enxerga a sociedade da qual ele pertence ou a sua causa mais importante que ele próprio, que a sua própria vida. 

Exemplos históricos de suicídios altruístas:
Os 300: Em Thermopylae, Leônidas, rei da cidade grega de Esparta, lidera seus guerreiros em desvantagem contra o massivo exército persa. Mesmo sabendo que a morte certa os espera, seus sacrifícios inspiram toda a Grécia a unir-se contra o seu inimigo comum. Os seus guerreiros sabiam que iriam morrer, mas a causa de defender Esparta, a sua sociedade, para eles era muito mais importante que a própria vida. 

Os Kamikazes: pilotos de aviões japoneses carregados de explosivos cuja missão era realizar ataques suicidas contra navios dos Aliados nos momentos finais da campanha do Pacífico na Segunda Guerra Mundial. 

Os muçulmanos que colidiram com o World Trade Center em Nova Iorque, em 2001 também foram suicidas altruístas, assim como soldados de guerras civis, mundiais, outras pessoas que lutaram pela independência de seus países, etc. 

Por Karoline Rodrigues de Melo

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