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[1ª Série] Filosofia: Parmênides de Eleia

segunda-feira, 19 de março de 2018

Textos extraídos da peça teatral “Grandes Pensadores”



 Por Karoline Rodrigues de Melo

PARMÊNIDES, O ELEATA – Παρμενίδης ὁ Ἐλεάτης



Monólogo de Parmênides:

— Bom dia! Deixem-me que faça a minha breve apresentação. Eu sou Parmênides de Eleia, pois sou natural dessa cidade, situada à costa sul da Magna Grécia.  Sou conhecido como um dos mais influentes filósofos pré-socráticos, embora tenha vivido na mesma época de Sócrates, este grande pensador ateniense!

Modéstia à parte, não fui um seguidor ou reelaborador de um pensamento já criado. Fui um inovador radical!

Não procurei um elemento da natureza para pensar como sendo o princípio substancial de tudo. Mas foquei meu pensamento no ser. O ser, na Filosofia, pode ser definido como "aquilo que é", mas dizer o que é o aquilo do ser, é outra questão filosófica!

Escrevi uma única obra chamada "Sobre a natureza", em forma de poema, que hoje apenas são conhecidos seus fragmentos. Nela narro o que ouvi das musas, que por uma carruagem puxada por corsas, conduziram-me à luz da verdade - que em grego significa alethéia.

Foram me oferecidas duas opções para compreender a realidade. A primeira diz respeito à via da opinião, que em grego chamamos de doxa. Essa é a via do erro, das opiniões falaciosas. É o caminho no qual os sentidos parecem atestar o devir, o movimento, o nascer e o morrer e, portanto, o ser junto com o não-ser. 

Meus caros, descobri que essa é a raiz do erro, da admissão da possibilidade de coexistir ser e não-ser, ou de admitir o ser virar não-ser e do nada, do não-ser surgir o ser. É contraditório buscar a essência, o princípio fundamental naquilo que não permanece. É um equívoco dar muita importância aos dados fornecidos pelos sentidos.

Mas, a verdade é, pois, o caminho do pensamento, já que o ser, o que existe, é tudo aquilo que pode ser pensado. Dessa forma, o que não é, o não-ser, o que não existe, não pode ser pensando nem, portanto, dito, sendo um caminho ilusório.

Para mim, a verdade sobre as coisas está no que permanece. Sendo assim, é necessário fazer o uso da razão para compreender a verdade. Assim, o ser - aquilo que é - é eternamente, pois o ser é a substância permanente. Ele é imutável e não pode deixar ser. Já o não-ser - a negação do ser - não é, não tem ser, não tem substância. Portanto, é nada, não existe. O não-ser é a mudança - devir -, que significa não ser mais aquilo que era, nem ser ainda algo que vai ser.

A via da opinião, da doxa, deve ser evitada para não concluirmos que "o ser e o não-ser são e não são a mesma coisa".

O filósofo alemão Nietzsche diz que se Heráclito é o filósofo do fogo, Parmênides é o filósofo do gelo, vertendo em torno de si uma luz fria e penetrante. Nietzsche descreve assim Parmênides, pelo fato de esse filósofo ter fixado no ser imóvel e uno a fonte de tudo o que é.

Em seu poema, o eleata narra o encontro com a deusa Verdade, que o instrui a se afastar do caminho sensível, uma via de confusão, que leva as massas indecisas a acreditarem que ser e não-ser são iguais.

O caminho do ser é o caminho da verdade, que deve ser una e sempre idêntica a si mesma. Na matemática, dois mais dois são quatro. Não importa o quanto as pessoas mudem de opinião, essa verdade continua inabalável - e mesmo as pessoas mais irascíveis são obrigadas a concordar com ela.

Parmênides exerceu grande influência no pensamento de Platão, filósofo e matemático do período clássico da Grécia Antiga, autor de diversos diálogos e fundador da Academia em Atenas, a primeira instituição de educação superior do mundo ocidental.

[1ª Série] Filosofia: Heráclito de Éfeso


Textos extraídos da peça teatral “Grandes Pensadores”



 Por Karoline Rodrigues de Melo

HERÁCLITO DE ÉFESO – Ἡράκλειτος

Monólogo de Heráclito:



— Bom dia! Eu me chamo Heráclito. Nasci em Éfeso, cidade da Jônia, atual Turquia. Alguns de meus contemporâneos me consideravam um homem de sentimentos elevados, orgulhoso e cheio de desprezo pelos outros.

Na verdade, minha origem é de uma família fundadora da cidade, considerada ilustre. No entanto, nunca tive boas relações com meus concidadãos. Apesar de ser de família importante, nunca me importei com o poder, aliás, nutri um profundo desprezo aos bens materiais.

Nunca dei importância à política, aos poetas gregos e à religião de meu tempo.

Vivi boa parte de minha vida isolado em um templo de Ártemis. Nos últimos anos da minha vida, passei a viver ainda mais isolado, nas montanhas, alimentando-me somente de plantas.

Assim como os pensadores de Mileto, em minha constante sede de conhecer, observei que a realidade é dinâmica e que a vida está em constante transformação. Mas, ao contrário dos primeiros pensadores – que buscavam na mudança aquilo que permanece –, decidi concentrar a minha reflexão no que muda.

O ser não é e o não-ser é! Essa é a minha conclusão sobre a origem de tudo! Não entenderam o meu pensamento? Deixe-me reformular: Tudo flui, nada persiste nem permanece o mesmo! Ou melhor, o ser não é mais do que o vir a ser.

Ocorre meus ilustres, que não se pode percorrer duas vezes o mesmo rio, assim como não se pode tocar duas vezes uma substância mortal no mesmo estado. Ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois quando nele se entra novamente, não se encontra as mesmas águas, e o próprio ser já se modificou. Assim, tudo é regido pela tensão e o revezamento dos opostos.

Tudo o que percebemos como imutável é uma ilusão. A vida é uma constante transformação. Tudo muda o tempo inteiro. Eu pareço estar parado aqui nesse palco, mas no meu corpo há movimento, meu sangue, minhas células estão em movimento. Assim como o próprio chão. Isso, o chão! Ele também é constituído de átomos que estão em movimento, apesar de não percebermos a olho nu. Sem contar que, tanto eu, quanto esse chão estamos no planeta Terra que gira em torno de si próprio e em torno do Sol.

Em meu tempo não havia teorias como a de físicos atuais que defendem que o Big Bang, a grande explosão, não foi o marco zero do universo, e sim uma etapa de um eterno ciclo de contração e expansão do Cosmo, que nunca teve início.

Eu mesmo não tinha a menor ideia do que era o Big Bang, mas já defendia que o universo sempre existiu e nunca vai acabar! Essa mudança contínua chamamos de devir – que significa transformação, fluxo constante que está presente em tudo no universo. Esta mudança nasce do conflito dos contrários.

A vida e a morte, o acordar e o dormir, a juventude e a velhice, o bem e o mal fazem parte de um mesmo jogo, o jogo de contrários. O frio se torna quente, a noite se torna dia, o novo se torna velho, a mesma ladeira que sobe, é a mesma que desce. Mas a luta dos opostos não produz o caos, ela determina a harmonia do universo.

Trazendo o meu pensamento para o tempo de vocês, eu poderia ser compreendido assim: todas as coisas e criaturas da natureza trazem em si o seu contrário. Ao mesmo tempo a semente da criação e da destruição. O código genético de cada célula traz a informação que permite que ela cresça, se desenvolva, mas também já está lá, em potencial a sua própria morte.

O ser humano muda o tempo inteiro, mas nem por isso deixa de ser humano. O bebê nasce, cresce, se torna adulto, têm seus filhos, envelhece, morre. A vida permanece, continua o seu fluxo.

Heráclito afirmava que a própria identidade das coisas está na mudança constante, na variação e no movimento incessante. “Não podemos entrar em um rio duas vezes pois, na segunda vez já não são as mesmas águas. Já não é o mesmo rio”, afirmava. Vimos que, para ele, nada existe no mundo que possa escapar à mudança.

Ele afirma que o princípio de tudo, o elemento fundamental é o fogo. É preciso notar que a indicação do fogo como princípio de todas as coisas não coloca Heráclito na mesma condição que os filósofos de Mileto. O fogo mencionado por Heráclito não se iguala à água de Tales ou ao ar de Anaxímenes.

Quando Heráclito indica o fogo como elemento primordial, está muito mais próximo de uma linguagem simbólica do que apontando para um fundamento concreto, uma arché. É necessário perceber que o fogo só existe pela constante mudança de coisas em cinzas e fumaça. Aniquilada esta mudança, não existe mais o fogo. Assim ele vê toda a realidade como que alimentada de mudança o tempo todo. 
A natureza é a vida dos contrários. É a luta dos contrários. Tudo flui (πάντα ε).  // “A quem desce no mesmo rio sobrevêm águas sempre novas” (frag. 12). “Nos mesmos rios entramos, nós mesmos somos e não somos” (frag. 49a).

[1ª Série] Filosofia: Resumão para a Avaliação Bimestral

domingo, 24 de março de 2013

Caros alunos,
Nossos primeiros testes já foram aplicados e corrigidos. De modo geral, o resultado não foi bem aquele que eu, como professora esperava de vocês. Levando isso em conta, resolvi esquematizar aqui os principais tópicos trabalhados para que sirvam de roteiro de estudo para a Avaliação Bimestral que acontecerá na próxima semana.
 criança-lendo
Vamos lá!
  • Explicação mitológica sobre a origem do mundo e do universo (cosmogonia): vocês devem se lembrar (espero que sim!) que, na Antiguidade, antes no nascimento da Filosofia, as pessoas quando não possuíam respostas reais para o que as afligiam criavam mitos para justificar aquilo que não conheciam. Dessa forma, os mitos eram passados de geração a geração e se tornavam “verdades” àqueles que criam, pois não dependiam de provas para serem aceitos. Ex.: a origem da vida, do mundo e do universo é fruto de um deus ou deuses.

  • Explicação filosófica sobre a origem do mundo e do universo (cosmologia): a Filosofia surgiu quando as explicações mitológicas já não mais satisfaziam a curiosidade e a busca pela verdade ao ser humano. Diante de vários fatores históricos que contribuíram para uma nova postura de pensamento sobre o mundo e sobre a própria humanidade, as pessoas buscavam respostas mais objetivas e reais para as suas perguntas. Dessa necessidade surgiu a Filosofia, que desde o seu princípio buscou encontrar racionalmente respostas para as questões que afligiam ao ser humano. Assim, respostas baseadas em explicações sobrenaturais e divinas eram deixadas de lado na procura de explicações lógicas, objetivas, concretas e racionalmente aceitas. Os primeiros filósofos tentaram responder a questões como “qual é a origem da vida?” e “qual é a origem do universo?” sem para tanto se apoiarem em elementos divinos.

  • Arché: os primeiros filósofos procuravam a arché, isto é, o princípio, a substância primordial que deu origem a todas as coisas que existem. Para a maioria dos filósofos pré-socráticos, a arché deveria ser um elemento simples, encontrado na natureza. Com o passar do tempo, vimos (e ainda veremos) que a Filosofia muda de foco, procurando questionar não mais a origem de tudo, mas sobre o ser humano e sua postura no mundo.

  • Teorias orientalista e do “milagre grego”:  tivemos a oportunidade de estudar duas teorias que justificavam, de formas distintas, a origem da Filosofia na Grécia. A primeira é a teoria orientalista, que defende o argumento de que os gregos antigos tiveram contato com a sabedoria oriental, principalmente com os persas e babilônios, o que contribuiu para que surgisse uma nova maneira de se ver e pensar sobre o mundo. A segunda teoria é a do "milagre grego”, que diz ser a Filosofia uma área de conhecimento genuinamente grega, dada a cultura tão especial e avançada do povo grego. Porém, vale lembrar que essa teoria é o que chamamos de visão etnocêntrica – que ao fazer um juízo de valor, parte do princípio de que uma cultura é superior às demais. Os pensadores que defendiam a teoria “do milagre” grego eram, certamente, europeus e não queriam abrir mão do mérito de serem os “criadores exclusivos” de um saber tão especial e importante como a Filosofia!

  • Fatores que contribuíram para o nascimento da Filosofia na Grécia Antiga: teorias orientalista e “do milagre grego” à parte, o que de fato contribuiu para o nascimento da Filosofia na Grécia Clássica foi um conjunto de fatores históricos que proporcionou àquele povo uma nova maneira de pensar a realidade. Entre estes fatores, podemos destacar: a criação da moeda e das leis da cidade que fizeram com que os antigos afastassem das negociações e dos direitos/deveres o sagrado e a vontade divina. A popularização da escrita, que permitiu aos cidadãos gregos a releitura dos mitos que antes eram apenas cantados pelo rapsodo, proporcionando assim a reflexão sobre estas histórias revelando assim suas inconsistências. E a forma com que foi estruturada a polis grega - com o estímulo à retórica e o direito à palavra contribuiu para que os gregos desenvolvessem o seu senso crítico, num exercício constante de análise sobre que era levado ao debate, sendo possível uma nova maneira de enfrentar o mundo, diferente da simples aceitação.

  • Os filósofos pré-socráticos: foram assim denominados, pois muitos, como o nome sugere, antecederam a Sócrates no tempo, mas, especialmente pela diferença encontrada no objeto de sua Filosofia. Poucas informações existem a respeito deles. As datas de nascimentos não são precisas e o que se sabe sobre suas teorias são baseados em alguns fragmentos que resistiram ao tempo e às informações passadas por filósofos posteriores. Alguns dos primeiros pré-socráticos também foram chamados de filósofos da natureza, pois buscavam mediante a observação do mundo encontrar um elemento primordial que pudesse explicar a origem do mundo e do universo. αρχή, arché, que em grego significa princípio das coisas, em outras palavras, a “matéria-prima”de que são feitas todas as coisas.

  • O filósofo que é intitulado como “o pai” da Filosofia é Tales de Mileto: para ele, a água era o princípio fundamental de todas as coisas, ou o αρχή. Tales acreditava que a água era o elemento primordial: a água permanece basicamente a mesma, em todas as transformações dos corpos. Quando esteve no Egito, ele pôde observar como os campos inundados ficavam fecundos depois que as águas do Nilo retornavam ao seu delta. É possível que ele tenha observado também que, depois da chuva, apareciam rãs e minhocas, assim como percebeu que para existir vida, a água é expressamente necessária.

  • Discípulo de Tales, Anaximandro de Mileto acreditava que nosso mundo era apenas um dos muitos mundos que surgem de “alguma coisa” e se dissolvem “nesta alguma coisa” que ele chamava de infinito - em grego άπειρο. É difícil compreender o que ele entendia por infinito, mas ao contrário de Tales, Anaximandro não imaginou uma substância determinada. Talvez ele quisesse dizer que aquilo que a partir do qual tudo surge é algo completamente diferente do que é criado. E como tudo que é criado é também finito, o que está antes e depois desse finito tem de ser infinito. Sendo assim, a substância básica não poderia ser algo tão trivial quanto à água.

  • Anaxímenes de Mileto concordava que a arché deveria ser indeterminada, porém não poderia ser um elemento situado fora dos limites da observação e da experiência. O ar seria o elemento primordial. Pelo processo de rarefação e condensação se formariam outros elementos como a água, a terra e o fogo, e a partir desses, todos os demais.

  • Pitágoras de Samos possuía uma resposta bem diferente dos filósofos de Mileto quanto ao princípio de tudo. Ele foi um grande matemático e por isso defendeu a tese de que todas as coisas são números. O princípio fundamental (a arché) seria a estrutura numérica, matemática, da realidade. Os corpos eram constituídos por pontos e a quantidade de pontos de um corpo definiria suas propriedades. O mundo teria surgido da imposição de limites para o ilimitado por meio de formas numéricas.

  • Parmênides: o filósofo reflete sobre o ser, sobre o que existe - que mais tarde foi estudado por uma área da Filosofia chamada de ontologia, o estudo do ser. Parmênides achava contraditório buscar a essência, o princípio fundamental naquilo que não permanece - nosso mundo. Segundo ele, é um equívoco dar muita importância aos dados fornecidos pelos sentidos. Pois, para ele, a verdade sobre as coisas está no que permanece. Sendo assim, é necessário fazer o uso da razão para compreender a verdade.
    “O ser é e o não-ser não é”. Para Parmênides o ser - aquilo que é - é eternamente, pois o ser é a substância permanente. Ele é imutável e não pode deixar ser. O não ser - a negação do ser - não é, não tem ser, não tem substância. Portanto, é nada, não existe. O filósofo identifica o não-ser com a mudança - devir -, que significa não ser mais aquilo que era, nem ser ainda algo que é.
    Em seu poema Sobre a Natureza, Parmênides expôs dois caminhos para a compreensão da realidade. O primeiro é o caminho da verdade, da razão, da essência, do ser. E o segundo, o caminho da opinião - doxa - da aparência enganosa, pois tudo se confunde com o movimento, com a pluralidade e o devir. Segundo ele, essa via precisa ser evitada para não concluirmos que “o ser e o não-ser são e não são a mesma coisa” - um raciocínio ilógico!

  • Heráclito: o filósofo se impressionou com a variação constante que a realidade manifestava aos seus sentidos. “Panta rei”, afirmava Heráclito, o que significa: “tudo muda”, “tudo flui”. Este filósofo afirmava que a própria identidade das coisas está na mudança constante, na variação e no movimento incessante. “Não podemos entrar em um rio duas vezes, pois na segunda vez já não são as mesmas águas. Já não é o mesmo rio”, afirmava. Para ele, nada existe no mundo que possa escapar à mudança. Ele afirma que o princípio de tudo, o elemento fundamental é o fogo. 
    A indicação do fogo como princípio de todas as coisas não coloca Heráclito na mesma condição que os filósofos de Mileto. O fogo mencionado não se iguala à água de Tales ou ao ar de Anaxímenes. Quando Heráclito indica o fogo como elemento primordial, está muito mais próximo de uma linguagem simbólica do que apontando para um fundamento concreto, uma arché. É necessário perceber que o fogo só existe pela constante mudança de coisas em cinzas e fumaça. Aniquilada esta mudança, não existe mais o fogo. Assim Heráclito vê toda a realidade como que alimentada de mudança o tempo todo.
    A luta de forças contrárias é que origina a multiplicidade, é o que impulsiona a vida. A ordem e a desordem, o bem e o mal, o belo e o feio, a construção e a desconstrução, a justiça e a injustiça, enfim, pares de opostos é que fazem o mundo se modificar e evoluir.
    Vamos estudar galerinha! É preciso melhorar a compreensão do que foi discutido ao longo desse primeiro bimestre! = )
    Prof.ª Karoline

[1ª Série] Tópicos de Filosofia: Heráclito de Éfeso

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Boa noite, galerinha!

Este vídeo exibido no Fantástico pela Viviane Mosé mostra de forma bem didática a teoria do filósofo pré-socrático Heráclito.


Assistam-no e depois respondam em seus cadernos as questões abaixo:

1) Você acredita que existem coisas ou situações que são eternas, que permanecem intactas? Dê exemplos.
2) Qual é a principal ideia da filosofia de Heráclito de Éfeso?
3) Explique a frase do filósofo "não podemos nos banhar duas vezes no mesmo rio, porque o rio não é o mesmo e nós nunca somos os mesmo".
4) Qual é a visão cosmológica (origem do mundo, do universo) de Heráclito?
5) O que significa o termo "devir"? De que forma este termo está presente na filosofia de Heráclito?

[1ª Série]: Tópicos de Filosofia: Heráclito

domingo, 12 de agosto de 2012


Heráclito: tudo flui
Viveu no século V a.C: Se o filósofo Parmênides fica impressionado com a identificação racional de um ser que confere identidade à realidade e, ao mesmo tempo, não pode admitir a mobilidade e a variação percebidas no real, Heráclito se impressiona com aquela variação constante que a realidade manifesta aos seus sentidos. “Panta rei“, afirmava Heráclito, o que significa: “Tudo muda”, “tudo flui”.
Este filósofo afirmava que a própria identidade das coisas está na mudança constante, na variação e no movimento incessante. “Não podemos entrar em um rio duas vezes pois, na segunda vez já não são as mesmas águas. Já não é o mesmo rio”, afirmava Heráclito. Para ele, nada existe no mundo que possa escapar à mudança.
Ele afirma que o princípio de tudo, o elemento fundamental é o fogo. É preciso notar que a indicação do fogo como princípio de todas as coisas não coloca Heráclito na mesma condição que os filósofos de Mileto. O fogo mencionado por Heráclito não se iguala à água de Tales ou ao ar de Anaxímenes. Quando Heráclito indica o fogo como elemento primordial, está muito mais próximo de uma linguagem simbólica do que apontando para um fundamento concreto, um arque. É necessário perceber que o fogo só existe pela constante mudança de coisas em cinzas e fumaça. Aniquilada esta mudança, não existe mais o fogo. Assim Heráclito vê toda a realidade como que alimentada de mudança o tempo todo.
Héraclito é verdadeiramente o filósofo da pesquisa. Nele, pela primeira vez, a pesquisa filosófica alcança a clareza da sua natureza e dos seus pressupostos. Por alguma razão a própria palavra filosofia é usada e classificada no seu justo sentido.
Segundo Heraclito, a própria natureza impõe a pesquisa: com efeito ela "gosta de ocultar-se." (fr. 123, Diels). Ele diz que o homem deve examinar-se a si mesmo. "Procurei-me a mim mesmo", diz ele (fr. 101, Diels). A pesquisa interior abre ao homem zonas sucessivas de profundidade, que jamais se esgotam: a razão, a lei última do eu, aparece continuamente mais além, em uma profundidade sempre mais longínqua e ao mesmo tempo sempre mais íntima.
Heraclito põe constantemente defronte do homem a alternativa entre o estar acordado e o dormir: entre o abrir-se, mediante a pesquisa, à comunicação inter-humana, que revela a realidade autêntica do mundo objectivo: e o fechar-se no próprio pensamento isolado, num mundo fictício que não tem comunicação com os outros (fr. 2, 34, 73; 89).
Nestas afirmações está contido o ensinamento fundamental de Heraclito, de cujo ensinamento ele deduz que os homens não podem elevar-se senão por meio de uma longa pesquisa "Os homens não sabem como o que é discorde está em acordo consigo mesmo: harmonia de tensões opostas, como as do arco e da lira" (fr. 51).
A harmonia não é para Heraclito a síntese dos opostos, a conciliação e o anulamento das suas oposições; é antes a unidade que submete precisamente as oposições e a torna possível. A Homero, que dissera: "Possa a discórdia desaparecer de entre os deuses e de entre os homens", Heraclito replica: "Homero não se apercebe que pede a destruição do universo; se a sua prece fosse atendida, todas as coisas pereceriam" (Diels, A22): A tensão é uma unidade (isto é, uma relação) que pode encontrar-se somente entre coisas opostas enquanto opostas. A conciliação, a síntese anulá-la-iam. Unidade própria do mundo é, segundo Heraclito, uma tensão deste género: não anula nem concilia nem supera o contraste, mas fá-lo existir, e fá-lo compreender, como contraste.

[1ª Série] Tópicos de Filosofia: Parmênides e o ser e o não-ser

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Ser e não-ser
Parmênides, a verdade e o paradoxo

Josué Cândido da Silva*


O filósofo alemão Friedrich Nietzsche diz que se Heráclito é o filósofo do fogo, Parmênides é o filósofo do gelo, vertendo em torno de si uma luz fria e penetrante.

Nietzsche descreve assim Parmênides de Eléia (cerca de 530 a 460 a. C.), pelo fato de esse filósofo ter fixado no ser imóvel e uno a fonte de tudo o que é.

Parmênides narra em seu poema o encontro com a deusa Verdade, que o instrui a se afastar do caminho sensível, uma via de confusão, que leva as massas indecisas a acreditarem que ser e não-ser são iguais.

Ora, apenas o ser pode ser pensado, já que o não-ser não é. Se eu não consigo ter uma idéia do que a coisa é, não posso pensá-la - e o que não pode ser pensado não é ser. Daí Parmênides conclui que só o ser é - e que o não-ser não é. Dessa verdade ele deduz outras:

1) O ser é todo inteiro - se o ser tivesse partes, algo nele seria separado, não fazendo parte do ser, mas isso seria não-ser. Conseqüentemente, o ser, sendo uno e indivisível, não pode ter partes.

2) O ser é imutável - o ser não pode ter surgido do não-ser ou tornar-se não-ser, já que o ser só pode ser idêntico a si mesmo - e não pode ser e não-ser ao mesmo tempo. Acreditar que o ser foi gerado significa dizer que houve um tempo em que o ser era não-ser, o que é contraditório. Logo, o ser é eterno, sem começo nem fim.

O mesmo se aplica ao dizer e ao pensar. Só podemos pensar no que é, pois só o que é exprime-se em palavras. Pensar em nada é não pensar; dizer nada é ficar calado.

A verdade muitas vezes é paradoxal
O caminho do ser é o caminho da verdade, que deve ser una e sempre idêntica a si mesma. Por exemplo, dois mais dois são quatro. Não importa o quanto as pessoas mudem de opinião, essa verdade continua inabalável - e mesmo as pessoas mais irascíveis são obrigadas a concordar com ela.

Algo depõe, entretanto, contra a verdade do ser revelada a Parmênides: no mundo sensível não vemos nada assim eterno e imutável, mas apenas uma pluralidade em constante devir (ou seja, em um fluxo permanente de mudança).
Ora, mas quem disse que a verdade pode ser apreendida pelos sentidos? Heráclito já não havia indicado que, por trás da desordem aparente das coisas, há um Logos que tudo ordena?

Da mesma forma, para Parmênides, a verdade não precisa estar em conformidade com os fenômenos, mas, ao contrário, a verdade muitas vezes é paradoxal, ou seja, contrária ao que a opinião ou os sentidos indicam. Enquanto os pitagóricos advogavam a existência de uma pluralidade, Parmênides afirma que tudo é uno e contínuo.