Profª de Filosofia e Sociologia da Rede Estadual de Goiás desde 2010.
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[2ª Série] Filosofia: Resumão para a Avaliação Bimestral

domingo, 24 de março de 2013

Para os alunos do 2º ano,
Segue também um resumo do que já foi estudado que requer a compreensão de vocês.


  • A importância da Filosofia Cristã, seu contexto histórico e objetivo: a Filosofia cristão surgiu na Idade Média dentro de um cenário em que se destacou a grande expansão e predomínio do Cristianismo. Foi nesse período que a consciência religiosa (cristã) associou0se à consciência racional (filosófica) para construir a chamada Filosofia Cristã. A Igreja Católica passou a exercer importante papel político na sociedade medieval. Conquistou também uma enorme quantidade de bens materiais, além de, no plano cultural, exerceu ampla influência, traçando um quadro intelectual em que a fé cristã tornou-se o pressuposto, um antecedente necessário, de toda a vida espiritual. A Filosofia Cristã tinha como objetivo explicar racionalmente as verdades da fé, principalmente no período em que a Igreja perdia seus fiéis para o Protestantismo.

  • A Patrística: foi a Filosofia Cristã, da Igreja Católica, elaborada pelos padres, que buscou utilizar a Filosofia em favor da Fé, como forma de defender o Cristianismo dos ataques dos pensadores considerados “pagãos” e combater as heresias.

  • Santo Agostinho e a relação estabelecida por ele entre: a) fé e razão; b) corpo e alma; c) vontade e pecado: foi o principal representante da Patrística. Agostinho vai buscar nos filósofos clássicos, principalmente na teoria de Platão elementos que possam ser utilizados para fundamentar a fé cristã. Por exemplo, Agostinho se adapta os conceitos de ideias imutáveis e da reminiscência para justificar filosoficamente a existência de Deus.
    Enquanto para Platão era possível conhecer a verdade através da razão, para Agostinho, a razão é um mero instrumento para a compreensão dos preceitos cristãos, de forma que, somente por meio da revelação é possível ao homem conhecer as verdades divinas. A Filosofia é um instrumento para explicar a Fé, porém, como seres limitados que somos, chegará um momento que ela não será capaz de desvendar os mistérios divinos, cabendo apenas à iluminação divida (por vontade de Deus) conhecer as verdades eternas.

  • Agostinho via no espírito a superioridade, sendo este responsável por comandar o corpo e não o seu contrário. A alma teria sido criada por Deus para dominar o corpo, dirigindo-o para a prática do bem. No entanto, quando o contrário ocorre, isto é, quando o corpo comanda a alma, Agostinho diz que nasce então o pecado, que tem origem das vontades do corpo. Por isso, ele dá tanta importância ao domínio da alma, por meio da sabedoria e da fé, sobre o corpo.

    Iluminação divina e a doutrina da predestinação: a teoria da iluminação divina defendida por Agostinho diz que somente os escolhidos por Deus serão capazes de conhecer as verdades eternas e divinas. A Filosofia ajuda a compreender a fé, mas não é suficiente. A doutrina da predestinação diz ser necessário à salvação humana, além das boas obras e da boa vontade, a concessão da graça divina, concedida a poucos.

  • Escolástica: 
    Contexto histórico: três séculos antes do seu surgimento, o imperador Carlos Magno, aliado ao Papa Leão III organizou o ensino e fundou escolas e universidades ligadas às instituições católicas, com isso, a cultura Greco-romana, que até então ficava reservada aos mosteiros, voltou a ser divulgada, passando a ter grande influência sobre o pensamento da época. A educação nestas escolas era de modelo romano, isto é, ensinava-se gramática, retórica, dialética, geometria, aritmética, astronomia e música, todas submetidas à teologia - estudo sobre Deus. Foi nesse período de florescimento cultural que nasceu a Escolástica (derivada de escola) como a maior produção filosófico-teológica, ligada ao aristotelismo.
    O principal objetivo da Escolástica era buscar a harmonização entre a fé cristã e a razão. Nesse contexto é possível dividi-la em três fases: 1ª - confiança perfeita na harmonia entre fé e religião (séc. IX ao XII); 2ª - com Tomás de Aquino, que considerava que a harmonização entre fé e razão poderia ser parcialmente alcançada (séc. XIII ao XIV); 3ª - decadência da Escolástica marcada por disputas que realçavam as diferenças entre fé e razão.

    A Escolástica não foi apenas referência em questões teológicas, mas contribuiu com significativos estudos da lógica - estudo do raciocínio válido. A questão dos universais derivou do desenvolvimento oferecido pelos escolásticos à lógica. Os universais são conceitos que podem se referir a coisas particulares e que provocou a reflexão sobre a relação existente entre palavras e coisas. Por conta da questão dos universais surgiram duas posições antagônicas para explicá-los: o realismo e o nominalismo.

    Realismo: seus adeptos sustentavam a tese de que os universais (conceitos) existem de fato, isto é, as ideias universais existem por si mesmas. Ex.: a bondade e a beleza seriam modelos a partir das quais se criariam as coisas boas e as coisas belas. Um dos principais pensadores dessa tese foi Santo Anselmo, que acreditava que os universais existiriam na mente divina.

    Nominalismo: seus defensores sustentam a tese de que os universais não existem por si mesmos, pois são apenas palavras, sem existência concreta. Não passam apenas de nomes, de convenção. Existiria apenas a individualidade.
    Entre as duas surgiu uma terceira posição, o realismo moderado de Pedro Abelardo que disse que só existiriam as realidades singulares, mas que seria possível buscar semelhanças entre os seres individuais, por meio da abstração, de forma a gerar conceitos universais. Não sendo, portanto, nem entidades metafísicas (Realismo), nem palavras vazias (Nominalismo).

  • São Tomás de Aquino: padre dominicano, filósofo e teólogo, proclamado santo e doutor da Igreja Católica, que nasceu em uma província da Itália, no séc. XIII. Ele foi um estudioso de Aristóteles, retomando suas ideias e tentando conciliá-las aos preceitos religiosos.
  • Os princípios estabelecidos por Tomás de Aquino para a compreensão da realidade sensorial - a realidade que somos capazes de perceber por meio dos sentidos:
    Princípio da não contradição: não existe nada que possa ser e não ser ao mesmo tempo e sob o mesmo ponto de vista.
    Princípio da substância: entre os seres podemos distinguir a substância, essência - sem a qual ela não seria aquilo que é; e o acidente - qualidade não essencial, que se o ser deixar de ter ele não deixará de ser o que é.
    Princípio da causa eficiente: é o que faz com que todos os seres que captamos pelos sentidos existam. Segundo Tomás de Aquino, os seres sensíveis são seres contingentes - que dependem de um agente que os produziu. Exemplo simbólico: o escultor que fez uma estátua. Neste caso, o escultor é a causa eficiente da escultura. Para a escultura existir (ser contingente) precisou de outro ser (causa eficiente).
    Princípio da finalidade: todo ser contingente existe em função de uma finalidade, de uma “razão de ser”. Todo ser contingente possui uma causa final, uma intenção, o objetivo da coisa.
    Princípio do ato e da potência: todo ser contingente (sensível) possui duas dimensões: o ato - que representa a existência atual do ser, que está dado no presente. E a potência - a capacidade real do ser, aquilo que não se realizou, mas pode se realizar.

  • De que forma Tomás de Aquino conciliou elementos da Filosofia de Aristóteles com a doutrina cristã para provar racionalmente a existência de Deus:
    1ª Prova: o primeiro motor – tudo aquilo que se move é movido por outro ser. Por sua vez, esse outro ser, para que se mova, necessita também que seja movido por outro ser, e assim sucessivamente. Se não houvesse um primeiro ser, cairíamos em um processo infinito. É necessário chegar a um primeiro motor que não é movido por ninguém – esse ser é Deus
    2ª Prova: a causa eficiente – todas as coisas no mundo não possuem em si a causa eficiente de suas existências (não produziram a si próprios). São efeitos de alguma coisa. É necessário admitir a existência de uma primeira causa eficiente, responsável pela sucessão de efeitos – essa causa primeira é Deus.
    3ª Prova: ser necessário e ser contingente – todo ser contingente do mesmo modo que existe, pode deixar de existir. Se todas as coisas que existem podem deixar de ser, então, alguma vez nada existiu. Mas, se assim fosse, também agora nada existiria, pois aquilo que não existe somente começa a existir em função de algo que já existia. É preciso admitir que há um ser que sempre existiu, um ser necessário, que seja a causa da necessidade de todos os seres contingentes. Esse ser é Deus.
    4ª Prova: graus de perfeição – em relação à qualidade de tudo que existe, pode-se afirmar que há graus de perfeição. Assim, estabelecemos que uma coisa é melhor que outra, mas bela, mas poderosa, mais verdadeira. Se dizemos que algo é “mais” ou “menos” determinada qualidade, devemos admitir que existe um ser com o máximo dessa qualidade. Esse ser máximo e pleno é Deus.
    5ª Prova: finalidade do ser – todas as coisas brutas, sem inteligência própria, existem na natureza cumprindo uma função, um objetivo, uma finalidade. Devemos então crer que, existe algum ser inteligente que dirige todas as coisas da natureza para que cumpram seu objetivo. Esse ser é Deus.

[2ª Série] Filosofia: A dúvida e a busca pela verdade

quarta-feira, 30 de maio de 2012

A dúvida e a busca da verdade
Josué Cândido da Silva*

Se alguém lhe perguntasse "O que você conhece?", você poderia pensar em uma porção de coisas, a maioria delas adquiridas em sua experiência cotidiana. Mas se a pessoa insistisse e perguntasse "Algo do que você sabe é realmente verdade? Apostaria sua vida nisso?", essas questões complicariam um bocado as coisas.

Eu, por exemplo, poderia dizer que tenho certeza que sou filho dos meus pais, mas talvez eu tivesse sido adotado ou trocado na maternidade e estar enganado a esse respeito. Poderia ainda estar enganado sobre uma série de outras coisas que até então julgava certas. E se reparar direito, tudo o que eu tenho são crenças, algumas até muito razoáveis, mas nada de que eu possa dizer que é uma verdade irrefutável. Percebo, então, que me falta um parâmetro para examinar as minhas crenças e verificar quais são realmente certas e quais são falsas.

Condições universais de validade
Durante a história da filosofia, vários foram os filósofos que tentaram estabelecer as condições para que algo fosse tomado como absolutamente verdadeiro, isto é, uma verdade que independesse de fatores circunstanciais e que fosse algo que não fosse verdadeiro para mim ou para um grupo de pessoas, mas para todos os seres racionais.

Você deve estar cansado de ver por aí grupos de pessoas com crenças estranhas, que dizem que eles estão certos e todos os outros enganados. Nesse caso, como decidir quem está certo? Votando? Mas se a maioria estiver errada e o pequeno grupo estiver certo, nunca conheceremos a verdade porque eles sempre perderão nas votações. É preciso que se trate de uma verdade universal, isto é, válida para todos, tanto para a maioria quanto para as minorias. Portanto, o que os filósofos investigam são as condições universais de validade, aquelas condições que independem das opiniões particulares que eu ou você possamos ter.

Ceticismo
Na investigação sobre as condições de validade do nosso conhecimento um grupo de filósofos merece destaque: os céticos. O termo cético vem da palavra grega skepsis, que significa "exame". Atualmente, dizemos que uma pessoa cética é alguém que não acredita em nada, mas não é bem assim. Um filósofo cético é aquele que coloca suas crenças e as dos outros sob exame, a fim de verificar se elas são realmente dignas de crédito ou não.

Pirro de Elis (360-275 a.C.) é considerado o fundador do ceticismo. Segundo ele, não podemos ter posições definitivas sobre determinado assunto, pois mesmo pessoas muito sábias podem ter posições absolutamente opostas sobre um mesmo tema e ótimos argumentos para fundamentar suas posições. Nesse caso, Pirro nos aconselha a suspensão do juízo e a mantermos nossa mente tranqüila (ataraxia). Ao invés de enfrentarmos o desgaste de acalorados debates que não produzirão certeza alguma, devemos manter silêncio (apraxia) e preservar uma atitude de suspeita diante de qualquer tipo de dogmatismo.

Depois de Pirro, muitos outros filósofos tornaram o ceticismo uma das mais importantes correntes filosóficas até os dias de hoje. Atualmente, alguns céticos defendem o probabilismo ou falibilismo, ou seja, na impossibilidade de encontrarmos verdades absolutas, seja pelas limitações de nossos sentidos e intelecto, seja pela complexidade da realidade, devemos tratar nossas crenças sempre como provisórias, como quem anda em gelo fino.

Desse modo, um cético nunca seria pego de surpresa se algo que todos acreditavam ser verdade se revelasse falso no futuro. Por outro lado, reconhecer que as verdades são provisórias não significa uma completa inação. Sabemos que os remédios são falhos, mas são a única coisa que temos para combater as doenças.

Isso também vale para o campo da ética. O filósofo Montaigne propunha que vivêssemos em harmonia com os costumes de nosso povo ou cultura, pois embora eles sejam falhos, são tão falhos quanto os de qualquer outro povo, não havendo razão para preferir este a aquele.

Despertar do sono dogmático
Conta a lenda que Pirro morreu enquanto dava aula de olhos vendados. Um aluno o teria alertado quanto ao precipício à sua frente. Cético, Pirro desconfiou do aluno e caiu. Essa lenda, obviamente, pretende mostrar os perigos de se duvidar de tudo. Mas será que um cético autêntico não duvidaria também de suas próprias dúvidas?

Odiado por alguns, o cético é como a abelha que aferroa o boi do conhecimento, retirando-o da mesmice das idéias prontas e acabadas, nos provocando, por meio da dúvida, a investigar a fundo os pressupostos de nossas crenças; ou, como diria Kant, o cético é aquele que nos desperta do nosso sono dogmático para lembrar-nos que pensar não é um fim, mas uma atividade.