Profª de Filosofia e Sociologia da Rede Estadual de Goiás desde 2010.
"Quem educa com carinho e seriedade, educa para sempre".
Comece onde você está. Use o que você tem. Faça o que puder.
 

[1ª Série] Sociologia: Como nos tornamos humanos?

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Somos todos seres sociais
Desde as suas origens, há cerca de 190 mil anos, o homo sapiens sapiens, ou homo sapiens moderno, espécie a qual pertencemos, se constituiu por meio do grupo. Assim como outros animais que vivem agrupados, os primeiros seres humanos só conseguiram sobreviver nas difíceis condições do mundo que os cercava porque contaram com o apoio e a solidariedade do grupo a que pertenciam.
Essa dependência do indivíduo em relação ao grupo teve início, assim, no momento mesmo em que surgiram os primeiros seres humanos, e continua até hoje. Uma de suas características a comunicabilidade humana, ou seja, a capacidade de o indivíduo se comunicar com seus semelhantes de forma a transmitir ideias, sentimentos, vontades, interesses, emoções. Essa capacidade evoluiu ao longo do tempo, passando de gestos e sinais a articulação de sons, ao desenvolvimento da linguagem, as primeiras manifestações artísticas - ainda no Período Paleolítico (190000 a.C.-8000 a.C.) - e escrita, criada em diferentes épocas em diversas regiões do planeta, como a Mesopotâmia (4000 a.C.), o Egito (3000 a.C.), a China (1700 a.C.) e a América Central, (900 a.C.) - datas aproximadas.
Hoje, utilizamos também novas formas de comunicação (a internet, por exemplo), mas algumas das que foram criadas por nossos ancestrais mais remotos, como a linguagem, ainda continuam em vigor.
A tendência do ser humano a viver em grupo pode ser comprovada de forma positiva pela experiência empírica, cotidiana: seja na escola, na família ou no país, fazemos parte de um conjunto mais amplo de pessoas, de um grupo social, ligado a um conjunto ainda maior, a sociedade em que vivemos. Mas há também outras formas de comprovar a necessidade da vida em grupo para o desenvolvimento do ser humano. Uma delas a experiência de crianças que vivem entre animais e em situações de isolamento em relação a outros indivíduos da espécie humana. Vamos conhecer uma dessas experiências?
Um caso intrigante
Em 1797, um menino seminu foi visto na floresta de Lacaune, na França. Mais tarde, foi registrado seu aparecimento no distrito de Aveyron. Descalço, apenas alguns farrapos de uma velha camisa (sinal de algum contato anterior com seres humanos) cobriam parte de seu corpo. Sempre que alguém se aproximava, ele fugia como um animal assustado.
Era um menino de cerca de 12 anos. Seu corpo estava repleto de cicatrizes. Provavelmente abandonado na floresta aos 4 ou 5 anos, foi objeto de curiosidade e provocou discussões acaloradas, principalmente na França.
Após sua captura, verificou-se que Victor (assim passou a ser chamado) no pronunciava nenhuma palavra e parecia no entender nada do que lhe falavam. Apesar do rigoroso inverno europeu, rejeitava roupas e também o uso de cama, preferindo dormir no chão. Locomovia-se apoiado nas mãos e nos pés, correndo como os animais quadrúpedes.

Como nos tornamos humanos?
Victor de Aveyron tornou-se um dos casos mais conhecidos de seres humanos criados em condições de liberdade em ambiente selvagem. Alguns médicos franceses afirmavam que o menino sofria de idiotia, uma deficiência mental grave. Segundo eles, teria sido essa a razão pela qual os pais o haviam abandonado.
O psiquiatra Jean-Marie Gaspard Itard não concordava com a opinião dos colegas. Quais as consequências, perguntava ele, da privação do convívio social e da ausência absoluta de educação para a inteligência de um adolescente que viveu assim, separado de indivíduos de sua espécie? Itard acreditava que a situação de abandono e afastamento da sociedade que explicava o comportamento diferente do menino. Discordava, assim, do diagnóstico de deficiência mental para o caso.
A partir de então, Itard trabalhou diretamente na educação do menino. Sua experiência foi registrada no livro A educação de um homem selvagem, publicado em 1801. Nesse livro, Itard apresenta seu trabalho com o menino de Aveyron, descrevendo as etapas de sua educação: ele já é capaz de sentar-se convenientemente mesa, de se servir da quantidade necessária de água para beber, de levar certos objetos ao seu terapeuta; diverte-se ao empurrar um pequeno carrinho e começa a ler (Filmes sugeridos: O garoto selvagem, de François Truffaut, 1970.).
Cinco anos mais tarde, Victor já confeccionava pequenos objetos e podava as plantas da casa. Esses resultados pareciam confirmar a tese de Itard, segundo a qual os antigos hábitos selvagens do menino e sua aparente deficiência mental eram apenas e tão-somente resultado de uma vida afastada da sociedade.
Com base nessa experiência, Itard formulou a hipótese de que a maior parte das deficiências intelectuais e sociais não são inatas, mas tem sua origem na falta de socialização do indivíduo considerado deficiente e na ausência de comunicação com seus semelhantes, especialmente de comunicação verbal.
Aproximando-se de uma visão sociológica, o pesquisador concluiu que o isolamento social prejudica a sociabilidade do indivíduo. Ora, a sociabilidade, ou seja, a capacidade de se comunicar e interagir com outros seres humanos, é o que torna possível a vida em sociedade.
OLIVEIRA, Pérsio Santos de. Introdução à Sociologia. São Paulo: Ed. Ática, 2010. p. 10-11.

[1ª Série] Filosofia: A Explicação Mitológica do Mundo

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Galerinha, segue um texto para aprofundar o conteúdo trabalhado em sala! =)
Profª. Karoline

A Explicação Mitológica do Mundo



A filosofia surge por volta do século VII a.C na Grécia Antiga. Havia outra forma de explicação do mundo antes do surgimento da filosofia, a explicação por meio da mitologia. A mitologia é o conjunto de mitos de um determinado povo. Mas afinal, o quê é um mito? Um mito é uma narrativa sobre a origem de alguma coisa (origem dos astros, da Terra, dos homens, das plantas, dos animais, do fogo, da água, dos ventos, do bem e do mal, da saúde e da doença, da morte, dos instrumentos de trabalho, das raças, das guerras, do poder, etc.).

O Mito (Mythos) é narrado pelo poeta-rapsodo, que escolhido pelos deuses transmitia o testemunho incontestável sobre a origem de todas as coisas, oriundas da relação sexual entre os deuses, gerando assim, tudo que existe e que existiu. Os mitos também narram o duelo entre as forças divinas que interferiam diretamente na vida dos homens, em suas guerras e no seu dia-a-dia, bem como explicava a origem dos castigos e dos males do mundo. Ou seja, a narrativa mítica é uma genealogia da origem das coisas a partir de lutas e alianças entre as forças que regem o universo. Por exemplo, o poeta Homero, na Ilíada, obra que narra a guerra de Tróia, explica por que, em certas batalhas, os troianos eram vitoriosos e, em outras, a vitória cabia aos gregos. Os deuses estavam divididos, alguns a favor de um lado e outros a favor do outro. A cada vez, o rei dos deuses, Zeus, ficava com um dos partidos, aliava-se com um grupo e fazia um dos lados - ou os troianos ou os gregos - vencer uma batalha. A causa da guerra, aliás, foi uma rivalidade entre as deusas. Elas apareceram em sonho para o príncipe troiano Paris, oferecendo a ele seus dons e ele escolheu a deusa do amor, Afrodite. As outras deusas, enciumadas, o fizeram raptar a grega Helena, mulher do general grego Menelau, e isso deu início à guerra entre os humanos.

O texto abaixo do filósofo Mircea Eliade trata dos mitos:

O mito conta uma história sagrada, quer dizer, um acontecimento primordial que teve lugar no começo do Tempo, desde o início. Mas contar uma história sagrada equivale a revelar um mistério, pois as personagens do mito não são seres humanos: são deuses ou Heróis civilizadores. Por esta razão seus feitos constituem mistérios: o homem não poderia conhecê-los se não lhe fossem revelados. O mito é pois a história do que se passou em tempos idos, a narração daquilo que os deuses ou os Seres divinos fizeram no começo do Tempo. “Dizer” um mito é proclamar o que se passou desde o princípio. Uma vez “dito”, quer dizer, revelado, o mito torna-se verdade apodítica1: funda a verdade absoluta. “É assim porque foi dito que é assim”, declaram os esquimós netsilik a fim de justificar a validade de sua história sagrada e suas tradições religiosas. O mito proclama a aparição de uma nova “situação” cósmica ou de um acontecimento primordial.

[...] Cada mito mostra como uma realidade veio à existência, seja ela a realidade total, o Cosmos, ou apenas um fragmento: uma ilha, uma espécie vegetal, uma instituição humana. Narrando como vieram à existência as coisas, o homens explica as e responde indiretamente a uma outra questão: por que elas vieram à existência? O “por que” insere se sempre no “como”. E isto pela simples razão de que, ao se contar Como uma coisa nasceu, revela se a irrupção do sagrado no mundo, causa última de toda existência real.

[...] A função mais importante do mito é, pois, “fixar” os modelos exemplares de todos os ritos e de todas as atividades humanas significativas: alimentação, sexualidade, trabalho, educação etc. Comportando se como ser humano plenamente responsável, o homem imita os gestos exemplares dos deuses, repete as ações deles, quer se trate de uma simples função fisiológica, como a alimentação, quer de uma atividade social, econômica, cultural, militar etc.

[...] Na Nova Guiné, numerosos mitos falam de longas viagens pelo mar, fornecendo assim “modelos aos navegadores atuais”, bem como modelos para todas as outras atividades, “quer se trate de amor, de guerra, de pesca, de produção de chuva, ou do que for... A narração fornece precedentes para os diferentes momentos da construção de um barco, para os tabus sexuais que ela implica etc.” Um capitão, quando sai para o mar, personifica o herói mítico2 Aori. “Veste os trajes que Aori usava, segundo o mito; tem como ele o rosto enegrecido e, nos cabelos, um love semelhante àquele que Aori retirou da cabeça de Iviri. Dança sobre a plataforma e abre os braços como Aori abria suas asas”.

[...] A repetição fiel dos modelos divinos tem um resultado duplo: (1) por um lado, ao imitar os deuses, o homem mantém-se no sagrado e, conseqüentemente, na realidade; (2) por outro lado, graças à reatualização ininterrupta dos gestos divinos exemplares, o mundo é santificado. O comportamento religioso dos homens contribui para manter a santidade do mundo (Mircea Eliade. O sagrado e o profano).

1 Apodítica: indiscutível; que não pode ser contestado.
2 Mítico: relativo ao mito.

[1ª Série] Filosofia: Alguns Mitos

Mito de Tor:  
Antes de o Cristianismo chegar à Noruega, acreditava-se que Tor cruzava os céus numa carruagem puxada por dois bodes. E quando ele agitava seu martelo, produziam-se raios e trovões. A palavra “trovão” – Thor-døn em norueguês – significa originariamente “o rugido de Tor”. Em sueco, a palavra para trovão é åska, na verdade ås-aka – que significa a jornada dos deuses no céu.
Quando troveja e relampeja, geralmente também chove. E a chuva era vital para os camponeses da era dos vikings. Assim, Tor era adorado como o deus da fertilidade.
A resposta mitológica à questão de saber por que chovia era, portanto, a de que Tor agitava seu martelo. E quando caía a chuva, as sementes germinavam e as plantas cresciam nos campos.
Não se entendia por que as plantas cresciam nos campos e como davam frutos. Mas os camponeses sabiam que isto tinha alguma coisa a ver com a chuva. Além disso, todos acreditavam que a chuva tinha algo a ver com Tor. E isto fazia dele um dos deuses mais importantes do Norte da Europa.
(GAARDER, Jostein. O mundo de Sofia. Cia das Letras, São Paulo, 1998. Página 34-35.)

Mito da Criação da Humanidade: De acordo com a mitologia grega, por exemplo, os Titãs foram os primeiros habitantes do universo. E um destes titãs chamado Prometeu pegou barro e misturou com suas lágrimas depois trabalhando com paixão e dedicação, ele modelou uma estatua na qual em seu próprio significado seria um Deus. Prometeu estava orgulhoso de seu primeiro feito e decidido à criar uma multidão de estátuas.
Quando Prometeu terminou suas estátuas, viu que elas eram inanimadas, burras, sempre imóveis, simplesmente algo sem vida.
No entanto algo ainda estava faltando nessas estátuas, e foi a deusa Atenas que concedeu sabedoria a Prometeu. Atenas levou uma xícara de néctar e banhou o rosto principalmente os lábios de cada estátua, quando as estátuas feitas de barro e lágrimas beberam um pouco do tal néctar uma nova luz brilhou em seus olhos, a partir daí as estátuas ganharam o poder do raciocínio e pensamento, que foi o que lhes faltavam para terem vida.

Mito grego da alternância das estações:  
Deméter (filha do deus Cronos e de Réia), deusa da terra cultivada, das colheitas e das estações do ano teve uma filha com Zeus, chamada Perséfone. Ela era uma jovem muito bela, despertando assim o amor dos deuses. Hades, deus do submundo se apaixonou por ela e tomado pela vontade de tê-la ao seu lado a raptou enquanto ela colhia flores com as ninfas da floresta. Deméter, ficou inconsolável com o rapto de sua filha, descuidando-se assim de suas tarefas de cuidar das terras e das lavouras, causando escassez de alimentos. Junto com Hermes, a deusa foi até o reino de Hades para buscar a sua filha, mas esta não tinha rejeitado totalmente o deus obscuro. Assim, estabeleceu-se um acordo: ela passaria metade do ano junto a seus pais, e o restante com Hades. Quando estava no Olimpo sua mãe estava feliz, portanto, capaz de cuidar das lavouras e da fertilidade da terra. Já enquanto estava no submundo, Deméter tomada pela tristeza os campos secavam e as sementes não brotavam. Este mito justifica o ciclo das estações do ano.

[A todos] Ano letivo 2013

sábado, 19 de janeiro de 2013



A vitalidade é demonstrada não apenas pela persistência, mas pela capacidade de começar de novo. Scott Fitzgerald


Caros alunos,

O ano de 2013 traz, para mim, mais do que um ano novo. Ele me proporcionará um novo desafio como professora: lecionar em uma nova escola, em uma nova cidade com uma realidade educacional a descobrir.

Orizona é minha nova casa. Fui muito bem recebida e até o momento tive contato apenas com pessoas maravilhosas! 

Aos meus ex-alunos, agradeço a oportunidade de ensinar e de aprender a ser a cada dia uma professora melhor! Continuem frequentando o blog. Pretendo mantê-lo ativo e com muitas novidades para as aulas de Filosofia e Sociologia. Ah! Não esqueçam dos meus conselhos! Um dia vocês entenderão os motivos pelos quais eu "pegava tanto no pé" de vocês! Sentirei saudades (aliás, já estou)! :' )


Aos meus novos alunos desejo um ano letivo proveitoso, que possamos nos apropriar dos saberes que nos serão colocados nesta ano e que cada um consiga dar seus próprios passos, trilhar novos caminhos, ousar e transformar (-se). Desejo também que tenhamos um ano letivo de respeito, metas alcançadas, compromissos, amizades, sucessos e muita aprendizagem!

Profª. Karoline

[2ª Série] Filosofia: Aristóteles

domingo, 9 de setembro de 2012

O mundo de Sofia
De Jostein Gaarder

ARISTÓTELES

FILÓSOFO E CIENTISTA

Querida Sofia! Certamente você ficou impressionada com a teoria das idéias, de Platão. E você não é a primeira. Não sei se você aceitou tudo sem maiores problemas, ou se tem algum comentário crítico a fazer. Mas  se você fez críticas à teoria de Platão, saiba que estas mesmas críticas já foram feitas por Aristóteles (384-322 a.C.). Durante vinte anos ele foi aluno da Academia de Platão.

Aristóteles não nasceu em Atenas. Ele era natural da Macedônia e veio para a Academia quando Platão tinha sessenta e um anos. Seu pai  era um médico de renome; um cientista da natureza, portanto. Este pano de fundo já diz alguma coisa sobre o projeto filosófico de Aristóteles. Seu maior interesse estava justamente na natureza viva. Ele não foi apenas o último grande filósofo grego; foi também o primeiro grande biólogo da Europa.

Exagerando um pouco, podemos dizer que Platão estava tão mergulhado nas formas eternas, no mundo das “idéias”, que quase não registrou as mudanças da natureza. Aristóteles, ao contrário, interessava-se justamente pelas mudanças, por aquilo que hoje chamamos de processos naturais.

Exagerando mais ainda, podemos dizer que Platão se apartou do mundo dos sentidos e que só percebia muito superficialmente tudo aquilo que vemos ao nosso redor. (É que ele queria escapar da caverna para espiar o eterno mundo das idéias!) Aristóteles fez exatamente o contrário: ele saiu ao encontro da natureza e estudou peixes e rãs, anêmonas e papoulas.

Você bem poderia dizer que enquanto Platão usou apenas sua razão, Aristóteles – ao contrário – usou também seus sentidos. Mas há nítidas diferenças entre eles, até mesmo na forma de escrever. Enquanto Platão era poeta e criador de mitos, os escritos de Aristóteles são sóbrios e pormenorizados como os verbetes de uma enciclopédia. Em compensação, muito do que ele escreveu estava baseado em estudos naturais realizados com extrema diligência.

Registros da Antigüidade dão conta de não menos que cento e setenta títulos assinados por Aristóteles. Destes, quarenta e sete chegaram até nossos dias. Não se tratava de livros completos. A maior parte dos escritos de Aristóteles compõe-se de apontamentos feitos para suas aulas. Também na época de Aristóteles, a filosofia era essencialmente uma atividade oral.

A importância de Aristóteles para a cultura  européia está também no fato de ele ter criado uma linguagem técnica usada ainda hoje pelas mais diversas ciências. Ele foi o grande sistematizador, o homem que fundou e ordenou as várias ciências.

Como Aristóteles escreveu sobre todas as ciências, vou me limitar  a tratar aqui sobre algumas das áreas mais importantes. E como me detive tanto em Platão, quero falar a você primeiramente sobre os argumentos de Aristóteles contra a teoria das idéias de Platão. Na seqüência, veremos como ele formulou sua própria filosofia natural. Afinal, Aristóteles resumiu o que os filósofos naturais haviam dito antes dele. Veremos também como ele tenta colocar em ordem nossos conceitos e funda a lógica como ciência. Por fim, vou falar um pouco sobre a visão que Aristóteles tinha do homem e da sociedade.

Se você aceita este roteiro, então só nos resta arregaçar as mangas e começar.

AS IDÉIAS NÃO SÃO INATAS

Assim como os filósofos que o antecederam, Platão também queria encontrar algo de eterno e de imutável em meio a todas as mudanças. Foi assim que ele chegou às idéias perfeitas, que estão acima do mundo sensorial. Além disso, Platão considerava essas idéias mais reais do que os próprios fenômenos da natureza. Primeiro vinha  a idéia “cavalo” e depois todos os cavalos do mundo dos sentidos, trotando como sombras projetadas sobre a parede de uma caverna. A idéia “galinha” vinha, portanto, antes da galinha e do ovo.

Aristóteles achava que Platão tinha virado tudo de cabeça para baixo. Ele concordava com seu mestre em que o exemplar isolado do cavalo “flui”, passa, e que nenhum cavalo vive para sempre. Ele também concordava que, em si, a forma do cavalo era eterna e imutável. Mas a “idéia” cavalo não passava para ele de um conceito criado pelos homens e para os homens, depois de eles terem visto um certo número de cavalos. A “idéia” ou a “forma” cavalo não existia, portanto, antes da experiência vivida. Para Aristóteles, a “forma” cavalo consiste nas características do cavalo, ou seja, naquilo que chamaríamos de espécie.

Vou explicar melhor: Aristóteles entendia por “forma” aquilo que todos os cavalos têm em comum. E aqui a imagem da fôrma de fazer broas perde a sua validade, pois as fôrmas de fazer broas existem independentemente de cada broa em particular. Aristóteles não acreditava que houvesse na natureza um armário, por assim dizer, com fôrmas desse tipo. Para ele, as “formas” estavam dentro das próprias coisas; as “formas” das coisas eram suas características próprias.

Aristóteles também não concordava com Platão no que se refere ao fato de a “idéia” galinha vir antes da galinha propriamente dita. Aquilo que Aristóteles chama de a “forma” galinha está em todas as galinhas e são as características que distinguem as galinhas. Por exemplo, o fato de elas botarem ovos. Assim, a galinha em si e a “forma” galinha são duas coisas tão inseparáveis quanto o corpo e a alma.

Com isto resumimos a essência das críticas de Aristóteles à teoria das idéias de Platão. Mas você deve atentar bem para o fato de estarmos falando de uma dramática mudança de pensamento. Para Platão, o grau  máximo de realidade está em  pensarmos com a razão. Para Aristóteles, ao contrário, era evidente que o grau máximo de realidade está em percebermos ou sentirmos com os sentidos. Platão considera tudo o que vemos ao nosso redor na natureza meros reflexos de algo que existe no mundo das idéias e, por conseguinte, também na alma humana.

Aristóteles achava exatamente o contrário: o que existe na alma humana nada mais é do que reflexos dos objetos da natureza.  Para Aristóteles, Platão foi prisioneiro de uma visão mítica do mundo, que confundia as idéias dos homens com a realidade do mundo.

Aristóteles nos chama a atenção para o fato de que não existe nada na consciência que já não tenha sido experimentado antes pelos sentidos. Platão poderia ter dito que não existe nada na natureza que não tivesse existido antes no mundo das idéias. Aristóteles achava que, desta forma, Platão estava duplicando o número de coisas. Ele tinha explicado o exemplar isolado do cavalo fazendo referência à “idéia” cavalo. Mas que tipo de explicação é esta, Sofia? Quero dizer, de onde saiu a “idéia cavalo”? Será que, nessa linha de  raciocínio, não poderia existir ainda um terceiro cavalo, de que a “idéia” cavalo não fosse senão uma imitação?

Aristóteles achava que todas as nossas idéias e pensamentos tinham entrado em nossa consciência através do que víamos e ouvíamos. Mas nós também temos uma razão inata. Temos uma capacidade inata de ordenar em diferentes grupos e classes todas as nossas impressões sensoriais. É assim que surgem conceitos como os de “pedra”, “planta”, “animal” e “homem”. É assim que surgem os conceitos de “cavalo”, “lagosta” e “canarinho”.

Aristóteles não negava que o homem tivesse uma razão inata. Muito pelo contrário: para ele, a razão era precisamente a característica  mais importante do homem. Só que nossa razão permanece “vazia” enquanto não percebemos nada. Uma pessoa, portanto, não possui “idéias” inatas.

AS FORMAS SÃO AS CARACTERÍSTICAS DAS COISAS

Após ter marcado bem a sua posição em relação à teoria das idéias de Platão, Aristóteles constatou que a realidade consiste em várias coisas isoladas, que representam uma unidade de forma e substância. A “substância” é o material de que a coisa se compõe, ao passo que a “forma” são as características peculiares da coisa.

Uma galinha bate as asas na sua frente, Sofia. A “forma” da galinha é precisamente o bater de asas, o cacarejar e a postura de ovos. Assim, a “forma” da galinha são as características próprias da espécie. Em outras palavras,  a “forma” da galinha é aquilo que ela  faz. Quando a galinha morre – e, portanto, pára de cacarejar -, a “forma” da galinha também deixa de existir. A única coisa que resta é a “substância” da galinha (que triste, não, Sofia?). Mas aquilo não é mais uma galinha.

Como já disse, Aristóteles se interessava  pelas mudanças da natureza. A substância sempre encerra a possibilidade de vir a adquirir determinada forma. Podemos dizer que a substância se esforça por concretizar uma possibilidade que lhe é inerente. Assim, para Aristóteles, toda mudança observada na natureza é uma transformação, ocorrida na substância, de uma possibilidade para uma realidade.

Sim, sim, Sofia… vou explicar melhor. E  vou tentar fazê-lo contando a você uma história engraçada. Era uma vez um escultor que vivia debruçado sobre um grande bloco de granito.Todos os dias ele dava umas batidinhas naquela pedra amorfa. Um dia, um jovem veio visitá-lo. – O que você está procurando? – perguntou o jovem. – Espere e verá – respondeu o escultor. Depois de alguns dias o jovem voltou e o escultor tinha “tirado da pedra” um belo cavalo. Surpreso, o jovem ficou um longo tempo parado diante do cavalo, até que perguntou ao escultor: - Como é que você sabia que ele estava lá dentro?

Sim, como é que ele sabia? De certa forma, o escultor tinha visto a forma do cavalo no bloco de granito, pois precisamente este bloco de granito encerrava a possibilidade de se transformar num cavalo. Aristóteles achava que todas as coisas da natureza encerram a possibilidade de concretizar determinada forma.

Vamos voltar ao ovo e à galinha. Um ovo de  galinha encerra a possibilidade de se transformar numa galinha. Isto não significa que todos os ovos de galinha chegam a se transformar em galinhas; afinal, muitos deles acabam na mesa do café da manhã como ovos fritos, mexidos ou como omelete, sem que a forma inerente ao ovo chegue a se concretizar. Do mesmo modo, porém, também é claro que um ovo de galinha jamais irá se transformar num ganso. Esta possibilidade não é inerente ao ovo de galinha. A forma de uma coisa, portanto, diz tanto sobre as suas possibilidades quanto sobre suas limitações.

Quando Aristóteles fala de “forma” e “substância”, ele não está pensando apenas em organismos vivos. Assim como a “forma” de uma galinha é cacarejar, bater as asas e pôr ovos, a “forma” de uma pedra é voltar ao chão quando atirada para o alto. Assim como a galinha não pode deixar de cacarejar, também a pedra não consegue deixar de cair no chão. É claro que você pode apanhar uma pedra e jogá-la bem para o alto, mas como é da natureza da pedra voltar a cair no chão, você não vai conseguir jogá-la na Lua. (Tome cuidado ao fazer este experimento, pois a pedra pode se vingar. Ela pode querer voltar para a Terra o mais rapidamente possível, e pobre daquele que estiver no seu caminho!)

A CAUSA FINAL, OU DA FINALIDADE

Antes de deixarmos de lado o fato de que todas as coisas vivas e mortas têm uma forma que diz alguma coisa sobre as possibilidades dessas coisas, devo acrescentar ainda que Aristóteles tinha uma notável visão das relações de causa e efeito na natureza.

No nosso dia-a-dia, quando falamos das “causas” disso ou daquilo, referimo-nos a como as coisas acontecem. A vidraça se quebra, porque Peter atirou uma pedra. Um sapato passa a existir porque um sapateiro costurou alguns pedaços de couro. Mas Aristóteles acreditava que na natureza havia diferentes tipos de causas. É importante saber, sobretudo, o que ele entendia por aquilo que chamou de causa da finalidade.

No caso da janela quebrada, também seria pertinente perguntar por que Peter atirou a pedra. Estamos perguntando, portanto, que intenção ele tinha, que objetivo ele perseguia. Também não há dúvida de que a intenção ou a finalidade desempenham um papel importante no caso da manufatura do sapato. Mas Aristóteles também partia de uma tal causa da finalidade para explicar alguns processos vivos da natureza. Vamos citar apenas um exemplo.

Por que chove, Sofia? Na certa você aprendeu na escola que chove porque o vapor d’água esfria nas nuvens e condensa na forma de gotas de chuva que, por causa da força da gravidade, caem no chão. Aristóteles também teria acenado com a cabeça em sinal de concordância.

Mas ele teria acrescentado que, até agora, você só citou três causas. A “causa substancial” ou causa material, que é o fato de o vapor d’água em questão (as nuvens) estar ali bem na hora em que o ar esfriou; a “causa atuante” ou causa eficiente, que é o fato de o vapor d’água esfriar, e a  causa formal, que é o fato de ser inerente à “forma” ou  à natureza da água cair no chão. Se você não tivesse dito mais nada, Aristóteles teria acrescentado que chove  porque as plantas e os animais precisam da água da chuva para crescer. É isto que ele chama de a causa final, ou da finalidade.

Como você pode ver, de repente Aristóteles atribuiu às gotas de chuva uma espécie de tarefa vital, um “propósito”. Nós provavelmente inverteríamos as coisas e diríamos que as plantas crescem porque há umidade. Você está vendo a diferença, Sofia? Aristóteles acreditava que  por trás de tudo na natureza havia um propósito, uma finalidade. Chove para que as plantas cresçam e as laranjas e as uvas possam crescer e servir de alimento aos homens.

Hoje em dia a ciência não pensa mais assim. Dizemos que os alimentos e a água são condições para que homens e animais possam existir. Sem essas condições nós não existiríamos. Mas não é intenção das laranjas ou da água nos alimentar.

No que se refere à sua teoria das causas, podemos nos sentir tentados a afirmar que Aristóteles se enganou. Mas não vamos nos apressar demais. Muitas pessoas acreditam que Deus criou o mundo para que homens e animais possam nele viver. Deste ponto de vista, podemos naturalmente afirmar que a água corre nos rios porque homens e animais precisam de água para viver. Só que neste caso estamos falando do propósito ou da intenção de Deus. Não que as gotas de chuva ou a água dos rios gostem de nós e queiram nos proteger.

LÓGICA

A diferença entre “forma” e “substância” também é muito importante quando Aristóteles descreve como o homem reconhece as coisas do mundo. Quando reconhecemos as coisas, nós as ordenamos em diferentes grupos ou categorias. Por exemplo, vejo um cavalo hoje, outro amanhã  e outro depois de amanhã. Os cavalos não são exatamente iguais, mas há alguma coisa que é comum a todos os cavalos. E esta coisa que é comum a todos os cavalos é a “forma” do cavalo. Tudo  o que é distintivo ou individual pertence à “substância” do cavalo.

E assim vamos nós pelo mundo, colocando as coisas em gavetas diferentes. Colocamos vacas no curral, cavalos no estábulo, porcos no chiqueiro e galinhas no galinheiro. O mesmo acontece quando Sofia Amundsen limpa o seu quarto. Ela coloca os livros na estante, os cadernos na mochila e as revistas na gaveta da escrivaninha. As roupas são cuidadosamente dobradas: peças íntimas são colocadas numa gaveta, malhas de lã em outra e meias em outra. Veja que fazemos o mesmo nas nossas cabeças: estabelecemos a diferença entre coisas que são feitas de pedra, coisas dealgodão e coisas de borracha. Distinguimos coisas vivas de coisas mortas, e “plantas” de “animais” e de “seres humanos”.

Você está acompanhando, Sofia? Aristóteles queria, portanto, arrumar o quarto da jovem natureza. Ele tentou mostrar que todas as coisas na natureza pertenciam a diferentes grupos e subgrupos. (Hermes é um ser vivo. Ou melhor, um animal. Ou melhor, um animal vertebrado. Ou melhor, um mamífero. Ou melhor, um cachorro. Ou melhor, um labrador. Ou melhor, um labrador macho.)

Vá até o seu quarto, Sofia. Pegue qualquer objeto que estiver no chão. Qualquer um, não importa. Você verá que o objeto que você pegou está inserido numa ordem superior. Quando encontramos uma coisa que não conseguimos classificar, levamos um verdadeiro choque. Por exemplo, se você se depara com uma pequena coisa e não sabe dizer ao certo se esta coisa pertence ao reino animal, vegetal ou mineral, acho que você não ousaria tocá-la.

Reino animal, vegetal ou mineral. Foi isto o que eu disse. Estou pensando naquele jogo de salão em que um pobre coitado é mandado para fora da sala enquanto os outros ficam pensando no que o pobre coitado terá de adivinhar quando voltar. Os outros decidem pensar em Mons, o gato do vizinho que nessa hora está no jardim. Então o pobre coitado entra de novo na sala e começa a adivinhar. Os outros só podem responder com “sim” e “não”. Se o pobre coitado for um bom aristotélico – e neste caso não seria um pobre coitado -, o diálogo entre ele e os demais bem que poderia ser este: É concreto? (Sim!) Pertence ao reino mineral? (Não!) É vivo? (Sim!) Pertence ao reino vegetal? (Não!) É um animal? (Sim!) É um pássaro? (Não!) É um mamífero? (Sim!) Isto é tudo sobre o bicho? (Sim!) É um gato? (Sim!) É Mons? (Siiiimm! Risadas…).

Foi Aristóteles, portanto, quem inventou esta brincadeira. A Platão atribuímos a honra de ter inventado o “esconde-esconde”; e a Demócrito, a honra de ter inventado as pedrinhas de Lego.

Aristóteles foi um organizador, um homem extremamente meticuloso, que queria pôr ordem nos conceitos dos homens. De  fato, ele também fundou a ciência da  lógica, e estabeleceu uma série de normas rígidas para que conclusões ou provas pudessem ser consideradas logicamente válidas. Vamos ver um exemplo: se constato primeiramente que “todas as criaturas vivas são mortais” (primeira premissa), e depois constato que “Hermes é uma criatura viva” (segunda premissa), então posso tirar a elegante conclusão de que “Hermes é mortal”.

O exemplo nos mostra que a lógica de Aristóteles trata da relação entre conceitos; neste caso, “criatura viva” e “mortal”. Mesmo que tenhamos que concordar com Aristóteles em que a conclusão tirada é cem por cento correta, temos de admitir que ele não nos diz nada de novo. Afinal de contas, nós já sabíamos que Hermes é “mortal”. (Ele é um cachorro, e todos os cachorros são “criaturas vivas” e, portanto, “mortais” por oposição às pedras da montanha.) Sim, Sofia, já sabíamos disso. Mas nem sempre a relação entre grupos ou coisas nos parece tão evidente. De vezem quando pode ser necessário pôr certa ordem em nossos conceitos.

Vou citar apenas um exemplo: será que realmente é verdade que um filhotinho de rato, minúsculo, pode mamar tal como um carneiro ou um porco? Isto parece muito estranho, mas vamos raciocinar um pouco: ratos não botam ovos (onde é que já se viu um ovo de rato?). Isto significa que seus filhotes são criaturas que já nascem vivas, exatamente  como os porcos e os carneiros.

Chamamos de mamíferos os animais que dão à luz filhotes vivos, e os mamíferos são animais que mamam o leite de suas mães. Chegamos, assim, aonde queríamos. A resposta já estava dentro de nós, só que precisávamos primeiro pensar um pouco. Na pressa tínhamos nos esquecido de que os ratos realmente mamam o leite de suas mães. Talvez isto se deva ao fato de nós nunca termos visto um ratinho mamando. E isto, por sua vez, se explica pelo fato de que os ratos têm um pouco de vergonha dos homens quando estão amamentando seus filhotes.

A ESCADA DA NATUREZA

No seu projeto de “colocar ordem” na vida, Aristóteles chama a atenção primeiramente para o fato de que tudo o que ocorre na natureza pode ser dividido em dois grupos principais. De um lado, temos as  coisas inanimadas tais como pedras, gotas de água e torrões de terra. Essas coisas não encerram em si uma  potencialidade de transformação. Segundo Aristóteles, elas só podem se transformar sob a ação de agentes externos. De outro lado, temos as criaturas vivas, que possuem dentro de si uma potencialidade de transformação.

Para Aristóteles, a natureza progride paulatinamente das coisas inanimadas para as criaturas vivas. Ao reino das coisas inanimadas segue-se primeiramente o reino das plantas, que, “em relação ao reino das coisas inanimadas, parece quase animado, e em relação ao reino dos animais parece quase inanimado”. Finalmente, Aristóteles divide o reino das criaturas vivas em dois subgrupos, o dos animais e o do homem.

Não podemos deixar de reconhecer que esta divisão, apesar da nítida insegurança em relação às plantas, é clara e simples. Há uma grande diferença entre as coisas vivas e as não vivas. Também entre as plantas e os animais existe uma enorme diferença; por exemplo, entre uma rosa e um cavalo. E também quero dizer que há uma grande diferença entre um cavalo e um homem. Mas onde estão exatamente essas diferenças? Será que você é capaz de me responder?

Infelizmente não tenho tempo de esperar que você escreva a sua resposta e a coloque num envelope cor-de-rosa junto com um torrão de açúcar [P. 75: “No momento seguinte, um enorme cão labrador entrou no esconderijo vindo do lado da floresta. Na boca ele trazia um grande envelope amarelo, que deixou cair aos pés de Sofia. (…) Aquele era o mensageiro! Sofia respirou aliviada. Por isso é que as bordas dos envelopes estavam sempre úmidas. Por isso, também, é que os envelopes tinham aquelas marcas. Marcas de dentes, agora ela sabia. Como ela não tinha pensado nisso antes? Agora sim fazia sentido a orientação que o filósofo lhe dera de colocar no envelope um docinho ou um torrão de açúcar quando quisesse mandar uma carta para ele.”]. Por isso prefiro responder eu mesmo e agora. Quando Aristóteles divide os fenômenos da natureza em diferentes grupos, ele parte das características das coisas; melhor dizendo, daquilo que elas são capazes ou daquilo que elas fazem.

Tudo o que vive (plantas, animais e pessoas) tem a capacidade de se alimentar, crescer e se multiplicar. Os animais e os homens têm, além disso, a capacidade de perceber o mundo que os cerca e de se locomover na natureza. E todas as pessoas têm, somada a tudo isto, a capacidade de pensar – ou melhor, a capacidade  de ordenar suas impressões sensoriais em diferentes grupos e classes. Desta forma, não existem na natureza divisões realmente estanques. Podemos perceber uma transição gradual de vegetais simples para plantas mais complexas, de animais simples para animais mais complexos. Bem no alto desta “escada” está o homem, que, para Aristóteles, vive a plenitude da vida da natureza. O homem cresce e se alimenta como as plantas, tem sentimentos e capacidade de locomoção como os animais, mas possui além de tudo isto uma característica muito especial, que só ele tem: a capacidade de pensar racionalmente.

Por isso, Sofia, o homem possui uma centelha da razão divina. Isso mesmo… eu disse “divina”. Em algumas passagens, Aristóteles explica que deve haver um Deus que colocou em marcha todos os movimentos da natureza. E, assim, Deus passa a assumir o cume absoluto da escada da natureza.

Para Aristóteles, os movimentos das estrelas e dos planetas comandavam os movimentos aqui na Terra. Mas devia haver alguma coisa que fazia os corpos celestes se movimentarem. Esta coisa Aristóteles chamava de  o primeiro impulsor, ou  Deus. Este primeiro impulsor não se movimenta, mas é a causa primordial de todos os movimentos dos corpos celestes e, por conseqüência, dos movimentos na natureza.

ÉTICA

Vamos voltar ao homem, Sofia. Para Aristóteles, a “forma” do homem se define por ele possuir tanto uma “alma vegetal” quanto uma “alma animal” e uma “alma racional”. E Aristóteles pergunta: como o homem deve viver? Do que o homem precisa para viver uma boa vida? Posso responder resumidamente: o homem só é feliz se puder desenvolver e utilizar todas as suas capacidades e possibilidades.

Aristóteles acreditava em três formas de felicidade: a primeira forma de felicidade é uma vida de prazeres e satisfações. A segunda forma de felicidade é uma vida como cidadão livre, responsável. E a terceira forma de felicidade é a vida como pesquisador e filósofo. Aristóteles sublinha o fato de que é preciso  integrar essas três formas a fim de que o homem possa levar uma vida realmente feliz. Ele recusa, portanto, toda e qualquer decisão unilateral. Se Aristóteles vivesse hoje, talvez ele dissesse que a vida de uma pessoa que só cultiva o corpo é tão unilateral – e portanto tão lacunosa – quanto a vida de outra que só usa a cabeça. Ambos os extremos são expressões de um modo errado de viver a vida.

Também no que concerne às virtudes, Aristóteles chama a atenção para um “meio-termo de ouro”. Não devemos ser nem covardes, nem audaciosos, mas  corajosos. (Coragem de menos significa covardia e coragem demais significa audácia.) Também não devemos ser nem avarentos, nem extravagantes, mas  generosos. (Generosidade de menos é avareza e generosidade demais é extravagância.)

O mesmo vale para a alimentação. Comer de menos é perigoso, mas comer demais também o é. A ética de Platão e de Aristóteles lembra a ciência médica grega: só através do equilíbrio e da moderação é que podemos nos tornar pessoas felizes ou “harmônicas”.

POLÍTICA

A visão de sociedade de Aristóteles também expressa essa necessidade de moderação, esse abandono do exagero. Ele chama o homem de um “ser político”. Aristóteles acha que sem a sociedade ao nosso redor não somos pessoas no verdadeiro sentido do termo. Nesse contexto, a família e a cidade satisfazem nossas necessidades vitais primárias, como a comida e o calor, o casamento e a criação de filhos. Mas a forma mais elevada do convívio humano, para Aristóteles, só pode ser o Estado.

E aqui surge a pergunta de como o Estado deve ser organizado. (Você ainda se lembra do Estado dos filósofos de Platão?) Aristóteles cita diversas boas formas de Estado. Uma delas é a monarquia, ou seja, aquela em que há um único chefe de Estado. Mas para que esta forma de Estado seja boa, ela não pode degenerar em “tirania”, na qual o único soberano comanda e dirige o Estado em proveito próprio. Outra boa forma de Estado é a aristocracia. Aqui, um grupo maior ou menor de soberanos governa o Estado. Esta forma de Estado deve cuidar para não acabar virando o governo de uns poucos, que dirigem o Estado em prol de seus próprios interesses. Seria mais ou menos o que chamaríamos hoje de “oligarquia”. Uma terceira boa forma de Estado é a democracia. Mas também esta forma de Estado tem o seu lado negativo. Uma democracia pode facilmente desvirtuar e se transformar no chamado domínio da plebe. (Ainda que o tirano Hitler não tivesse se tornado o chefe de Estado da Alemanha, uma multidão de pequenos nazistas teria conseguido instituir um terrível “domínio da plebe”.)

A VISÃO DA MULHER

Para concluir, precisamos dizer alguma coisa sobre a visão que Aristóteles tinha da mulher. Infelizmente, ela não era tão animadora quanto a de Platão. Fundamentalmente, Aristóteles achava que faltava alguma coisa à mulher. Para  ele, a mulher era “um homem incompleto”. Na reprodução, a mulher é passiva e receptora, enquanto o homem é ativo e produtivo. Por esta razão é que – segundo Aristóteles – o filho do casal herdava apenas as características do pai. Aristóteles acreditava que todas as características da criança já estavam presentes no sêmen do pai. Para ele, a mulher era apenas o solo que acolhia e fazia germinar a semente que vinha do “semeador”, ou seja, do homem. Para colocarmos a coisa em termos  verdadeiramente aristotélicos: o homem dá a “forma”; a mulher, a “substância”.

É surpreendente e mesmo lamentável que um homem como Aristóteles, tão inteligente para tantos assuntos, pudesse se enganar desse jeito no que se refere à relação entre os sexos. Mas isto nos mostra duas coisas: primeiro, que Aristóteles não deve ter tido muita experiência prática na vida com mulheres e crianças; em segundo lugar, que uma série de coisas pode dar errado quando são apenas os homens que reinam supremos na filosofia e na ciência.

A visão distorcida que Aristóteles tinha da mulher surtiu efeitos particularmente danosos, pois foi ela – e não a visão de Platão – que predominou durante toda a Idade Média. Desta forma, a Igreja herdou uma visão da mulher para a qual não há qualquer fundamento na Bíblia. Afinal de contas, Jesus certamente não foi um inimigo das mulheres!Vou ficando por aqui. Mas você logo vai ter notícias minhas.

REFERÊNCIA

GAARDER, Jostein. O Mundo de Sofia. São Paulo: Cia. das Letras, 1998.