Profª de Filosofia e Sociologia da Rede Estadual de Goiás desde 2010.
"Quem educa com carinho e seriedade, educa para sempre".
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[1ª Série] Filosofia: O trabalho no Mito de Sísifo

segunda-feira, 29 de agosto de 2022

 As perspectivas sobre o trabalho - O trabalho no Mito de Sísifo e na reflexão de Albert Camus

O mito de Sísifo fala sobre um personagem da mitologia grega considerado o mais inteligente e esperto dos mortais. Entretanto, ele desafiou e enganou os deuses e, por isso, recebeu um castigo terrível: rolar uma grande pedra montanha acima por toda a eternidade.

 

Sua história foi usada pelo filósofo Albert Camus como representação da inadequação do ser humano em um mundo sufocante e absurdo.

Mito de Sísifo resumido

A mitologia grega conta que Sísifo foi rei e fundador de um território que hoje se chama Corinto, localizado na região do Peloponeso. Seus pais eram Éolo e Enarete e sua esposa, Mérope.


Um dia, Sísifo viu a bela Egina ser sequestrada por uma águia a mando de Zeus. Egina era filha de Asopo, deus dos rios, que estava muito abalado com o sumiço da filha. Vendo o desespero de Asopo, Sísifo pensou que poderia tirar vantagem da informação que tinha e contou-lhe que Zeus havia sequestrado a moça. Mas, em troca, pediu que Asopo criasse uma nascente em seu reino, pedido que foi prontamente atendido.

 

Zeus, ao saber que Sísifo havia lhe denunciado, ficou furioso e enviou Tânatos, o deus da morte, para levá-lo para o mundo subterrâneo. Mas, como Sísifo era muito esperto, conseguiu enganar Tânatos ao dizer que gostaria de presenteá-lo com um colar. Na verdade, o colar era uma corrente que o manteve preso e permitiu que Sísifo escapasse. Com o deus da morte aprisionado, houve um tempo em que mais nenhum mortal morria.

 

Assim, Ares, o deus da guerra, também se enfureceu, pois a guerra necessitava de mortos. Ele então vai até Corinto e liberta Tânatos para que conclua sua missão e leve Sísifo para o submundo.

 

Sísifo, desconfiando que isso pudesse ocorrer, instrui sua esposa Mérope a não lhe prestar as homenagens fúnebres, caso ele morra. Assim é feito. Ao chegar ao mundo subterrâneo, Sísifo se depara com Hades, o deus dos mortos, e lhe conta que sua esposa não havia lhe enterrado da maneira adequada.

 

Então ele pede à Hades que volte ao mundo dos vivos apenas para repreender a esposa. Depois de muito insistir, Hades permite essa visita rápida. Entretanto, ao chegar no mundo dos vivos, Sísifo não retorna e, mais uma vez, engana os deuses.

 

Sísifo fugiu com sua esposa e teve uma vida longa, chegando à velhice. Mas, como era mortal, um dia foi preciso retornar ao mundo dos mortos. Lá chegando, se deparou com os deuses que havia ludibriado e então recebeu uma punição pior do que a própria morte.

 

Ele foi condenado a realizar um trabalho exaustivo e sem propósito. Teria que rolar uma enorme pedra montanha acima. Mas quando chegasse no topo, devido ao cansaço, a pedra rolaria morro abaixo. Então Sísifo deveria novamente levá-la para o alto. Esse trabalho teria que ser feito todos os dias, por toda a eternidade.

 

Significado do mito: um olhar contemporâneo

A história de Sísifo existe desde tempos remotos, tendo origem ainda antiguidade. Entretanto, essa narrativa revela muitos aspectos que servem como ferramentas para a reflexão de questões contemporâneas.

 

Percebendo o potencial simbólico dessa mitologia, Albert Camus (1913-1960), um escritor e filósofo francês, usou o mito de Sísifo em seu trabalho. Ele desenvolveu uma literatura que buscava a libertação dos seres humanos e questionava as relações sociais absurdas que rondavam o século XX (e que ainda se mantém).

 

Uma de suas obras mais famosas é O mito de Sísifo, lançada em 1942, momento em que ocorria a Segunda Guerra Mundial. Nesse ensaio, o filósofo utiliza Sísifo como alegoria para tratar de questões existenciais como o propósito de vida, a inadequação, a futilidade e o absurdo da guerra e das relações de trabalho. Assim, Camus elabora uma relação entre a mitologia e a atualidade, trazendo para nosso contexto o trabalho de Sísifo como uma tarefa contemporânea cansativa e inútil, onde o trabalhador ou trabalhadora não vê sentido, mas precisa continuar a exercer para conseguir sobreviver.

 

Muito combativo e com ideias de esquerda, Camus compara o terrível castigo do personagem mitológico ao trabalho exercido por grande parte da classe trabalhadora, condenada a fazer a mesma coisa dia após dia e, geralmente, sem consciência de sua condição absurda.

 

Esse mito só é trágico porque seu herói é consciente. O que seria sua pena se a esperança de triunfar o sustentasse a cada passo? O operário de hoje trabalha todos os dias de sua vida nas mesmas tarefas, e esse destino não é menos absurdo. Mas só é trágico nos raros momentos em que se torna consciente. Sísifo, proletário dos deuses, impotente e revoltado, conhece toda a extensão de sua miserável condição: pensa nela durante a descida. A clarividência que deveria ser o seu tormento consuma, ao mesmo tempo, sua vitória. Não há destino que não possa ser superado com o desprezo.

Albert Camus, O mito de Sísifo

 

Reflexão sobre o tema: 

O que o mito de Sísifo tem a ver com o trabalho?

O que diz o mito de Sísifo?

O que quer dizer a expressão trabalho de Sísifo?

Qual conclusão podemos tirar do mito de Sísifo?

  

Prof.ª Karoline Rodrigues de Melo


[1ª Série] Filosofia: Qual é a importância de estudar Filosofia?

domingo, 2 de fevereiro de 2020




O que é a Filosofia?
·      A Filosofia é uma área de conhecimento, que surgiu há 2.600 anos, na Grécia. Estuda problemas fundamentais relacionados à existência, ao conhecimento, à verdade, à política, aos valores morais e estéticos, à mente e à linguagem.

Para que serve?
·      A Filosofia leva o aluno à oportunidade de desenvolver um pensamento independente e crítico, ou seja, permite a ele experimentar um pensar individual.

Por que é importante?
Há muito tempo, nós homens, tentamos entender o sentido da vida, os motivos que nos levam a amar ou odiar algo, a entender o que é bom e mau. Todas estas questões são filosóficas. E vão aparecer independentemente de serem ou não discutidas na escola. Quando os alunos têm filosofia na grade curricular, o assunto acaba fazendo parte do dia a dia...
Boa parte de nós, brasileiros, não teve contato com a disciplina porque ela foi banida do currículo escolar pela Ditadura Militar, e substituída por Educação Moral e Cívica. Só em junho de 2008, mais de 40 anos depois, a filosofia voltou e se tornou matéria obrigatória no Ensino Médio das escolas de todo o país.

Quer saber por que é importante ter contato com essa área?
1. Interessa aos adolescentes
Ao contrário do que se pensa: os temas trabalhados pela filosofia não são cabeludos, coisa de adulto. Eles fazem parte do universo humano, independente da idade. Mas há um desafio: tornar os textos escritos pelos filósofos, muitas vezes complexos, em algo que os jovens entendam e achem legal.
Para isso, os professores podem utilizar livros didáticos, filmes, música, obras artísticas. Mas o mais importante é que o aluno entenda que algo tão próximo a ele como a liberdade e o livre-arbítrio, por exemplo, são problemas enfrentados pelos filósofos ao longo dos séculos e que eles têm algo a nos dizer sobre isso.
Os professores têm o desafio de fazer com que as teses filosóficas façam sentido e tenham relevância para os adolescentes. E isso depende da boa didática do professor. "É necessário abordar os conceitos com base nas experiências do jovem", diz Darcísio Muraro, professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e coordenador do Instituto de Filosofia da Philosletera.

2. Provoca questionamentos
Toda criança é naturalmente filosófica. É curiosa, questionadora. Mas o dia-a-dia, em meio à escola e à vida dos adultos, reprime esse instinto. A criança cresce sem saber o quanto é importante questionar por que as coisas são assim e não assado. O contato com a filosofia no Ensino Médio é capaz de resgatar essa capacidade que vem da infância. Afinal, será que o que achamos ser certo, bonito, poderia não ser? Conceitos importantes como verdade, beleza, liberdade, ética e política, por exemplo, são trabalhados nessas aulas. E dificilmente têm espaço em outras disciplinas.

3. Elimina "pré-conceitos"
Muitas vezes a aula de filosofia se confunde com um espaço de debate solto e bate-papo, de sobreposição de opiniões. E ela realmente pode - e deve - começar como uma discussão, na qual os alunos apresentam seus "pré-conceitos" ou "pré-juízos" sobre determinados conceitos, como verdade, beleza, liberdade, ética, política, arte.
Mas um segundo momento é crucial. O jovem precisa descobrir que não há consenso sobre esses temas e deve ter contato com textos que apresentam outras maneiras de raciocinar sobre os mesmos problemas. Uma boa aula deve, assim, incluir a leitura de textos clássicos da filosofia.
"É importante como exercício de leitura, de reflexão, de atenção, de síntese, de vocabulário, de interpretação", diz o professor Márcio Danelon, da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Além dos textos, ele indica o uso de filmes, música, poesia e outros recursos para serem trabalhados com o texto filosófico.
O aluno também deve ter a oportunidade de repensar suas ideias iniciais. "O professor precisa reservar um momento para que os alunos coloquem suas novas ideias, seja por texto, teatro, desenho", conta Darcísio Muraro, professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e coordenador do Instituto de Filosofia da Philosletera.

4. Estimula o raciocínio
As aulas de filosofia servem como estímulo para o raciocínio e para o aprendizado de muitas outras disciplinas. Além disso, o aluno consegue perceber que não há resposta certa para muitos assuntos, como ética e moral.
Diversos conceitos que foram trabalhados ao longo da história para explicar questões problemáticas, muitas vezes apresentam apenas soluções provisórias. Com isso, o adolescente é estimulado a construir seu próprio conceito sobre essas questões e a refletir sobre seu comportamento diante do mundo. Passa a entender um pouco mais a sociedade atual, a refletir sobre nossos problemas sociais e educacionais.
"O aprendizado repercute de maneira direta no dia a dia do adolescente e pode ajudá-lo a fazer uma opção melhor para seu futuro", diz Darcísio Muraro, professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e coordenador do Instituto de Filosofia da Philosletera.

5. Enriquece as conversas em família
Muitas vezes, temos certeza de que nossa ideia sobre determinado assunto é a certa. Mas como pai, você deve entender que seu filho pode aprender outras ideias em sala de aula. E o mais legal é que ele tenha liberdade para discutir isso em casa.
Um dos papéis importantes dos pais é criar um ambiente onde os filhos tenham a liberdade de discutir o que aprenderam na escola. Toda a família sai ganhando com isso.
Se você acha que está despreparado para conversar sobre assuntos filosóficos em casa, há muito material disponível na internet, e diversos centros de referência promovem eventos sobre filosofia.

6. É cobrada no vestibular? Reprova?
·      É matéria obrigatória em vestibulares e no ENEM. E tem tanto peso e importância quanto qualquer outra matéria do currículo!

[2ª Série] Filosofia: A Revolução Copernicana de Kant

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

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A imagem acima ilustra, apesar do didatismo rasteiro, a divisão kantiana entre "noúmeno" e "fenômeno". Essa divisão retrata a “revolução copernicana” de Kant na filosofia.

Sendo, conforme Georges Pascal: “a revolução copernicana de Kant é a substituição, em teoria do conhecimento, de uma hipótese idealista à hipótese realista. O realismo admite que uma realidade nos é dada, quer seja de ordem sensível (para os empiristas), de ordem inteligível (para os racionalistas), e que o nosso conhecimento deve modelar-se sobre essa realidade. […] O idealismo supõe, ao contrário, que o espírito intervém ativamente na elaboração do conhecimento e que o real, para nós, é resultado de uma construção.” p.36  ( O pensamento de Kant)

Conforme Julian Marias: “As coisas em si são inacessíveis; não posso conhecê-las, porque na medida em que as conheço já estão em mim, afetadas pela minha subjetividade; as coisas em si (númenos) não são espaciais nem temporais, e nada pode dar-se a mim fora do espaço e do tempo. As coisas, tal como se manifestam para mim, como aparecem para mim, são os fenômenos. Kant distingue dois elementos no conhecer: o dado e o posto. Há algo que se dá a mim (um caos de sensações) e algo que eu ponho (a espaço-temporalidade, as categorias), e da união desses dois elementos surge a coisa conhecida ou fenômeno. Portanto, o pensamento, ao ordenar o caos de sensações, faz as coisas; por isso Kant dizia que não era o seu pensamento que se adaptava às coisas, mas sim o contrário, e que sua filosofia significava uma ‘revolução copernicana’.”

De acordo com o próprio: “não conhecemos a priori nas coisas senão aquilo que nós mesmos nelas colocamos”  (Kant apud PASCAL)

Portanto, Kant coloca o problema gnoseológico em primeiro plano e abala o reinado “dogmático” da metafísica. Nisso dá a razão investigar a si mesma rsrs. Assim, com a “Crítica da Razão Pura” começa o idealismo alemão, um exemplare inconteste do pensamento moderno, do cartesianismo e do racionalismo.

[1ª Série] Filosofia: Parmênides de Eleia

segunda-feira, 19 de março de 2018

Textos extraídos da peça teatral “Grandes Pensadores”



 Por Karoline Rodrigues de Melo

PARMÊNIDES, O ELEATA – Παρμενίδης ὁ Ἐλεάτης



Monólogo de Parmênides:

— Bom dia! Deixem-me que faça a minha breve apresentação. Eu sou Parmênides de Eleia, pois sou natural dessa cidade, situada à costa sul da Magna Grécia.  Sou conhecido como um dos mais influentes filósofos pré-socráticos, embora tenha vivido na mesma época de Sócrates, este grande pensador ateniense!

Modéstia à parte, não fui um seguidor ou reelaborador de um pensamento já criado. Fui um inovador radical!

Não procurei um elemento da natureza para pensar como sendo o princípio substancial de tudo. Mas foquei meu pensamento no ser. O ser, na Filosofia, pode ser definido como "aquilo que é", mas dizer o que é o aquilo do ser, é outra questão filosófica!

Escrevi uma única obra chamada "Sobre a natureza", em forma de poema, que hoje apenas são conhecidos seus fragmentos. Nela narro o que ouvi das musas, que por uma carruagem puxada por corsas, conduziram-me à luz da verdade - que em grego significa alethéia.

Foram me oferecidas duas opções para compreender a realidade. A primeira diz respeito à via da opinião, que em grego chamamos de doxa. Essa é a via do erro, das opiniões falaciosas. É o caminho no qual os sentidos parecem atestar o devir, o movimento, o nascer e o morrer e, portanto, o ser junto com o não-ser. 

Meus caros, descobri que essa é a raiz do erro, da admissão da possibilidade de coexistir ser e não-ser, ou de admitir o ser virar não-ser e do nada, do não-ser surgir o ser. É contraditório buscar a essência, o princípio fundamental naquilo que não permanece. É um equívoco dar muita importância aos dados fornecidos pelos sentidos.

Mas, a verdade é, pois, o caminho do pensamento, já que o ser, o que existe, é tudo aquilo que pode ser pensado. Dessa forma, o que não é, o não-ser, o que não existe, não pode ser pensando nem, portanto, dito, sendo um caminho ilusório.

Para mim, a verdade sobre as coisas está no que permanece. Sendo assim, é necessário fazer o uso da razão para compreender a verdade. Assim, o ser - aquilo que é - é eternamente, pois o ser é a substância permanente. Ele é imutável e não pode deixar ser. Já o não-ser - a negação do ser - não é, não tem ser, não tem substância. Portanto, é nada, não existe. O não-ser é a mudança - devir -, que significa não ser mais aquilo que era, nem ser ainda algo que vai ser.

A via da opinião, da doxa, deve ser evitada para não concluirmos que "o ser e o não-ser são e não são a mesma coisa".

O filósofo alemão Nietzsche diz que se Heráclito é o filósofo do fogo, Parmênides é o filósofo do gelo, vertendo em torno de si uma luz fria e penetrante. Nietzsche descreve assim Parmênides, pelo fato de esse filósofo ter fixado no ser imóvel e uno a fonte de tudo o que é.

Em seu poema, o eleata narra o encontro com a deusa Verdade, que o instrui a se afastar do caminho sensível, uma via de confusão, que leva as massas indecisas a acreditarem que ser e não-ser são iguais.

O caminho do ser é o caminho da verdade, que deve ser una e sempre idêntica a si mesma. Na matemática, dois mais dois são quatro. Não importa o quanto as pessoas mudem de opinião, essa verdade continua inabalável - e mesmo as pessoas mais irascíveis são obrigadas a concordar com ela.

Parmênides exerceu grande influência no pensamento de Platão, filósofo e matemático do período clássico da Grécia Antiga, autor de diversos diálogos e fundador da Academia em Atenas, a primeira instituição de educação superior do mundo ocidental.